Category Archives: Geral

O sinal

No espaço entre os carros interrompidos sob o semáforo, ou no interior dos passageiros o vermelho sinalizado, retumba a vida moderna com os coágulos do pretérito; porque independe ao homem livre tais leis

Andar (des)acompanhado

Se ao andar acompanhado dos rostos desconhecidos, na rua dos Linhares, enxergo a vivência mais diversa possível, é porque ali, talvez como em qualquer outra rua, haja a variedade das solidões, vestidas

Doce veneno

Um doce veneno saliva-me de gota em gota, Nas manhãs úmidas em que precipita o tempo A injetar-me no crânio pingos de desespero, Com os quais fabrico o antídoto da escolha Em

Promíscuo

Tive muitas vezes este pensamento: se ando já desapercebido entre as pessoas, nos restaurantes ou nas ruas, não é porque essencialmente me tornei um deles, mas porque aprendi a vestir demasiado bem

Os ossos quebrados

Havia dentro de mim a sensação de sentimentos quebrados como se meus ossos estivessem assim. Tal qual uma faca houvesse sido cravada no fêmur direito. Eu mancava, na direção dela, arrastando a

Véspera de Natal

Logo que demos a receita de um suco de couve com batatas cruas, a ser tomado todos os dias, pela manhã, para que lhe fossem aliviadas as dores de estômago, a mulher

XC – Soneto dos noventa dias

Sempre que estive morto, ao abrir os olhos, O precipício era o que me trazia esperança, À desaparecer todos os pesados desconsolos Que faziam cruzar as mãos de sua lembrança. Um mundo

O serviço

Notei, mesmo perdido na contagem das folhas à minha frente, o tom melódico de sua voz, ao passo que falava de seus filhos. E pensei como nunca sentiria aquela doçura materna. Aquele

Prenda-me se for capaz

Houve este dia em especial, tão ordinário quanto os outros, ao passo que as paisagens eram deixadas para trás como sempre o são, em que percebi as prisões como impossíveis de serem

O passageiro inumerável

O funcionário da empresa viária tinha um olhar apagado, como a cor de sua gravata. Pediu-me o documento, verificou-o rapidamente, limpando o suor da testa e acrescentou: — Tenha uma boa viagem,

A inocência impossível

Se era impossível a inocência, por que havia ainda o provimento do erro em tantas faces que queriam inversamente sorrir? D. não entendia, ao passo que muitos seguiam os ensinamentos dos sábios,

Eu não existo

Assim como está árvore, que está à minha frente, não faria diferença alguma se um raio caísse sobre ela, ou sobre minha cabeça. Como seria indiferente se, no século XVI, uma câimbra

Sobre a ignorância miserável e a ignorância preguiçosa

Nenhum indivíduo deve ser culpado pelas condições em que nasce. As circunstâncias pelas quais vem à luz lhe são externas, incontroláveis até que se cubra, como um véu a verdadeira face, sua

Mal do Meu Século

Fora eu aos secos e molhados e solicitei: — Vendam-me um revólver e uma agulha… Atirei então em meu coração e sangrei. Desejava ver quanto sangue ele expurga, Pela ruptura da bala

Vapor confinado

Não existem quaisquer sinais nas paredes atrás do fogão. Enquanto o acendo, numa das bocas cuidadosamente coloco uma panela com água. A única sinalização, principiada a fervura da água, é aquela trazida

A grande fuga

Lembro-me de ter acordado e sentir-me como se ainda estivesse dormindo. Porque estava tudo muito escuro. Era como se as pálpebras se me pesassem insuportáveis. E não podendo abri-las, não havia a

Duas vezes

Não quero me apaixonar, Porque vi pássaros voando no céu. Eles voavam em círculos, Como se dominassem meu ar; Estipulavam-me ruidoso escarcéu, Atando-me belos, penosos vínculos. Não quero me apaixonar, Porque pássaros

Através do vidro

Não faria diferença alguma se fosse agora, amanhã, daqui dois anos ou cinco décadas. Porque hoje, ao ver através do vidro semi-embaçado, posso olhar para o céu pálido e fazê-lo viver ou sepultá-lo

Arquitetura dos elementos

Em suma cumplicidade ao vento, A areia tão só perfaz sua direção; Grão após grão, violenta, A pequenas pacientes rajadas, Em ameaça inútil aos meus olhos, Que irritam-se se eu os coço;

Vozes

Quantas e quantas vezes atirar-me foi preciso, dentro dos meus abismos, para despertar-me da ilusão da queda. Porque como uma criança que a tudo deslumbra, porém deixa que seus pais lhe coloquem a

A ocupação

  Não se preocupem, pois escancarei as portas férreas dos hospitais a todos. Não se preocupem, porque do mesmo modo, passando acima dos homens seus códigos, fi-lo também trancafiar as autoridades com

Marcações perpétuas

Tatuei todos os seus segredos em minha pele, para que, em frente ao espelho, fossem eles refletidos como uma lembrança em carne viva que anseia surgir pelas manhãs e ser julgada antes

O caminho

Criaram esses caminhos perfeitos, nada pedregosos, em que todas as pedras foram removidas para os que andam no traçado retilíneo da humanidade. Nestes percursos, as curvas nunca são acentuadas de modo que

Tarde repulsiva

À medida que ela se distanciava, o sol iluminava placidamente seus fios de cabelo raivosos (por que ela jamais os ajeitava quando estava entristecida). Ele a observava cabisbaixo, distante alguns metros, ao

O devorador de livros

Nem duas batidas na porta, e lá se vai alguém entrando. Porque assim o são com um filho as ocasiões de visita à casa dos pais, depois de crescido, emancipado e até

Servir-me fui, quando sentei, você não estava mais

  Vi-lhe num susto, assim, de abrupto, E na obra de arte fiz-lhe analogia; Como um entusiasta que a tela admira Sabendo que ali eterno é o segundo. Mas diante do quadro

Tédio com T

  São nestas sextas-feiras falidas, de chuva caída, Que se ainda entedia quem ao tédio imune diz ser. Queria então era sair à rua; ir ao freezer Da loja da esquina, apanhar

Dia de mestre

Era próximo a uma da tarde. As aulas do turno da manhã terminaram. E os alunos, juntamente aos seus mestres, haviam já lotado e principiavam a esvaziar o agradável restaurante Beira-Mar, localizado

Fiat Lux

Sendo, para o homem contido e inerte em sua sociedade, confraria, clã, comunidade, ou organismo — como se queira chamar um palito de fósforo numa caixa de outros milhares de palitos similares,

Ensaio sobre a exclusão

Um indigente repousa ao lado de sua garrafa plástica de aguardente, conforme se anunciam, da aurora, radiosos fios luminosos do céu desumano. À distância, ele se parece como o mais sujo item

Colina abaixo

Juntem, todos, o que lhes cabe numa mochila, e me sigam colina abaixo — comigo ou não; Despreocupados com o que possam encontrar, ou que ou a quem as perguntas fazer, respostas

Meu mapa-múndi supera o do Google Maps

Mantenho, ao lado da janela aberta de madeira, já pelo tempo incansável apodrecida em seus cantos, um gigantesco mapa-múndi, apregoado à parede de cor indistinta. Desse modo, sempre que deposito meus olhos

Folhas ao vento (Leaves in the wind)

  Voe com o vento, na direção Em que as leis não podem direcionar, Porque a minha autoridade Em pensar que o que eu desejo, No meu sonho que ao seu lado

O ciclo do eterno sucesso

Sr. Foster era um homem de sucesso. Na garagem, entre seus dois carros — um deles o caríssimo, porém estimável, último presente de aniversário de sua mulher –, repousava um modelo off

Transformando erros em ouro

Afundo os pés na areia fria, e antes que a onda mais próxima os aprofunde ainda mais, cruzo os dedos das mãos. Não executo reza alguma, no entanto. Neste gesto intenciono o

Da morte do indivíduo, para o nascimento da sociedade

Estive pesquisando entre meus semelhantes, para verificar se, de fato, há semelhanças entre nós, de modo que nos coloquem em mesmas categorias e definições. Logo percebi, dado este propósito, a imediata e

Por quem os corações dobram?

Meu coração não está fechado para balanço. Nem aberto como se despede o inverno para que venham falsas primaveras. Meu coração é simplesmente o mundo. Desse modo, ao andar pelas ruas da

Amor fati

Há a impossibilidade de muitos saberes ao decair da noite: em não saber quais pedaços deles ir-me-ei desfazer, não da carne, mas do espírito, ao adormecer em travesseiro de incontáveis carneiros mortos.

Biologia erra

Você, escárnio imperfeito de maturidade tardia é a morte precoce do meu coração altivo e vivo; Sua mediocre sina se espelha não em seu reflexo mas no tropeço do lago de Adonis

Paredes frágeis

As decadências se refugiam nos quartos. Enxergo atrás do concreto, esse desespero que quer abraçar; se reunir nos fins de semana, e lembrar que na decorrência do cotidiano, encerradas as segundas e

A vida é minha metáfora

Dissemino na escrita minhas epidemias. Morrer por palavras é superior a falecer pela mudez da não expressão. Os amores que tive, e não pude cativá-los, são meu troféu enferrujado pelo sentimento. Buscava

A verdadeira Monalisa

Se a imagem impõe-se como o mais belo desafio de quem a descreve, vi-me na condição de explorar o perfeccionismo das palavras. Sem aquarelas, pincel, quadro e tela, ainda assim pinta-se seu

Pai passado, filho presente

Meu querido filho, posso, em quaisquer circunstâncias cabíveis aos seus tropeços e saltos, ver você chorando por esses olhinhos esbugalhados. Não importa se num futuro mudo, em que se escuta não mais

Quando chorei pelos meus avós

Lembro-me de seus gestos que não sabiam escrever no ar. E depois da possibilidade de cometer todos os pecados, os quais apenas uma criança teria a coragem de aguçar sob a penitência

Confortavelmente entorpecido

Talvez eu ligue a televisão num desses canais que não transmitem nada senão o escândalo da vida cotidiana. Ouça durante cinco minutos o que cospem os participantes de um programa ridículo, cuja baixeza encenada seja

Um molho de chaves vazio

Seria impossível, outrora, que minhas ausências fossem preenchidas pelo que sequer tinha ciência existir. Como um cego de cegueira leitosa, surgida das páginas amarelas de um livro de José Saramago, tropeçava nos

O homem que não sabia seu nome

A fila se estendia por poucos metros, mas o suficiente para dizer-se dela que era longa. Encontrava-se à vez um homem de média estatura. Suas pernas vestiam calça negra de linho; seu

Ostra feliz não faz pérola

As culpas queimam como ácido. Quais seriam, então, as justificativas alcalinas a lhes neutralizarem. Todos os sofrimentos buscam ter sua explicação na sua causa mais próxima. Isso é fato inevitável até aos

O homem rotina

Estava ainda deitado, quando uma fresta de luz adentrou através da cortina esvoaçante, pela força da primeira brisa da manhã. Sem abrir os olhos, Humberto sabia que já era dia. Relutava, no

Olhos envidraçados

Meu grito tem se transformado num sussurro. Posso me comunicar com todas as instâncias desse modo, ao mesmo tempo em que escuto minha própria voz. Meu pensamento é meu castiçal com muitas

Eu sinto muito

Costumava me sentir triste diante do nascer do sol. Neste dia, em especial, não chorei quando ele surgiu. Não me despertei com lágrimas secas em jejum no travesseiro, ou com vontades as

A goiabeira

Havia nos fundos de casa, no quintal, uma majestosa goiabeira. Perdia-se entre as demais espécies de árvore que, desde que me recorda a memória, sempre fizeram parte do lote onde morávamos. Acompanhei-a

O que não ensinam nos bancos da escola

  A cabeça humana será sempre uma convulsão de sentimentos e percepções; explico-me. As drogas a ela trazidas — esqueça-se aqui a classificação moral do que deve ou não ser colocado em

Olhos de Lis

Teus olhos de lis fizeram-me um aprendiz quero ar desses pulmões ah… diria Camões amor é fogo que arde… não tenho mais medo pois, minha arte transcende meus dedos que escrevem agora

Viciado eu me tornei, na droga da percepção

  “Oi, meu nome é Lucas Vinícius da Rosa, e eu sou um alcóolatra dos sentimentos cotidianos.” Tornei-me uma espécie de monstro com face delicada. Absorvi todos estes abraços que não pude

As vidraças humanas

Olhei à direita. As vidraças da pizzaria eram verdadeiramente transparentes. Atrás delas, mesas recheadas de pessoas de carne e osso. Entretanto me pareciam todas elas, de onde eu as olhava, feitas de

Licença para voo

As nuvens choram fios de cristal Os lagos de meu peito se inundam Os meandros do que me é visceral São o que meus demônios estudam! Na esquina, um filósofo da cólera

Um aceno às paixões, sem o chapéu

Assento-me aqui, confortavelmente em uma cadeira sem estofado, para narrar esta descrição nem dos céus, nem dos infernos. Poderia falar da vizinha Gertrudes, cujo pano de prato está estendido no parapeito da

Ela era um verdadeiro tratado de Estética

Àquela altura da noite, em que a embriaguez me tomava o organismo, não poderia absolutamente deixar de me espantar. Sua beleza era lúcida, precisa e natural. Conversava, apoiado ao capô de um

Diário lúcido de uma alma embriagada

Sento-me aqui para escrever o relato mais sincero possível. Irei esclarecer todas as partes ocultas pela neblina da negligência. E trago-me como personagem fictício, senão humano. Comecemos, desse modo, pelos pudores vistos

Crepúsculo dos Ídolos

A estátua de mármore, mas com pés de argila, Para fronte aponta seu lábaro de falsa glória Ostentando o sangue que derramara na pista, Para que cravasse seus Ídolos, sua escória! Ó,

José, o metafísico da lanchonete árabe da esquina

Em me debruçar na janela, ainda na adolescência da noite, constato o término de mais um dia para José e seus funcionários, na lanchonete de comida árabe da esquina. Chovera deverás durante

Três em um, o paraíso das loiras

Debruçado na janela do quarto andar, negando o que ocorria abaixo de mim, abstraído pela bagunça das nuvens no céu, ouvi um barulho do térreo. A porta de madeira de um dos

Entre cores e vidro

Cheguei atrasado no meu próprio enterro pois, quando beijei a morte na boca era outra boca que eu queria beijar como é triste perceber que esse mundo inteiro fadar-se-á à mentira do

Perto ou triste

Longe, longe, perto ou triste porque insiste e não desiste de sorrir sempre para mim Longe, longe, demais até mas, fui a pé e o seu José disse que a estrada não

Algoz de todos nós

Fujo das lágrimas tal qual o diabo da cruz sentimento que faz jus, ao meu porém contudo, faria tudo, não fosse o que não fazer banho-me em noite de lua perdida, sem

Se meu pensamento falasse

Resolvi, de súbito, escrever tudo, aqui, o que não poderia viver de outra forma. Eis que tal vislumbre, ou se diria pensamento, veio-me inquieto enquanto minhas pálpebras não se fechavam. Alguns chamariam

Uma volta por ai: eis meu texto

Quando o Sol oferece seus raios a todos, logo se vêem as criaturas inocentes e as que, em torno da fogueira, tudo fazem para não se queimar. São assim os dias nos

Bom dia: mais do mesmo!

Quando o tédio lhe der bom dia, cuidado, pode ser que ele já tenha dormindo com você. Os raios de sol irão cantar a mesma canção, juntamente aos gestos que se repetem

A praça ou A igreja

Uma brisa muito leve vinha de uma direção incerta. No entanto, embora quando rebatesse em meu rosto nada fizesse, era suficiente para carregar uma folha descansada abaixo do banco em que eu

Soneto enferrujado

Se das milhares de praias pudesse ser eu tão apenas um grão de areia qual ser-me-ia a lembrança rasteira a encher-me o espírito e inundasse? Seria da memória relembrar burlesco que ao

Poema pintado

A única consciência que não pesa é aquela que não vive; O anteparo do quadro retratado seria a musa sempre presente ao pintor que ainda não faleceu? A concepção de tudo soa

Eterno incompleto

Eu com os olhos arregalados, ela com a privação de ver o que já não quero; Eu com minha boca chea de dentes, ela com a língua queimada, que não sente mais

Elogio à embriaguez

Sejamos estritamente sinceros. Digo isso como uma máxima a mim mesmo, e em prol de preservar um hábito que muito me agrada. A bebida, em si, elemento de destruição de lares, encontrará

Novelo cardíaco

Fiz-me, entre um abrir e piscar de olhos, um pretenso teórico e investigador. Elaborei uma teoria sobre a composição humana; mais precisamente sobre o coração dos homens. Menos um músculo cardíaco, dosado

Poetas não sobem pódios

  E se aqui não houvesse a competição Seriamos todos iguais uns aos outros À medida que exibimos outros colossos O pódio iria à falência, e não em vão Todos comporíamos os

Débeis mentais no shopping Indiferença

Na praça de alimentação, localizada no terceiro piso do shopping Indiferença, Eduardo costumava perambular de um canto ao outro. Sem objetivo, apenas babava ligeiramente pelo canto da boca. Quando as gotículas de

A vida não imita a arte senão fazê-la

Arte não se faz. Surge. Portanto, firmado este pressuposto, florescer a arte é dar voz à paixão (latente e ardente que faz irromper o peito), de uma maneira ou outra associada à

Romance moderno

Ela está com o celular à mão. Contorna a esquina com os olhos vidrados na tela. Está sequiosa, sedenta por um toque, uma vibração que indique que ele lhe contatou. Ele, distante

O reflexo refletido

Seus olhos, antes claros, estavam enegrecidos. Havia um sentimento inicialmente enigmático no olhar; depois, transformara-se, em seu pensamento, na revelação sobre sua condição atual: sentia-se despedaçada. Fizera planos com ele por muito

Quando as fraquezas são qualidades

Por que o martírio da fraqueza, se ela existe em todos nós? Por que o enaltecimento da força, se de profundezas trevosas e sombrias muitos de nós nos levantamos. Existe um questionamento

O que Einstein nunca enunciou

Resolvi hoje testar as teorias físicas, algumas delas. Desafio primeiramente as ondas sonoras. Senti elas, agora mesmo, tão fracas. Repercutiam o som de corações alvoraçados, até o momento em que foram interrompidas

About the intersection between humans and ants

That’s alright, little ant. You can bite me and seek your next piece of sugar. There are no worries about your feelings of survival. Your antennas address the deep necessity of eat.

Heart skydiving

This blue sky seems to high but my wings are too large and by now I can tightly reach the white sun, the yellow moon and for you make them switch There

A vida é uma cascata

Imagino que muitos já tenham passado por isso: uma tempestade, logo após uma calmaria, em seguida uma fria brisa que faz lembrar os ventos forçosos que antes estremeciam. Sabe, há muita vida

As entrelinhas do Contrato

I. Das vozes frívolas as perguntas às quais tão só as suas respostas; faça-se disto uma moralista aposta e encontrar-se-ão ávidos jogadores a preencherem os largos corredores das casas de jogos da

Meu urro de ano velho, ou novo, tanto faz…

Palpita-me o coração diante dessas situações. Como se eu, por uma passividade incontrolável, pudesse enxergar nos abraços inusitados as mais incólumes reações. Recheado ao meu redor por tradições e vínculos convencionais que

Se meus olhos não fossem prismas

Passaram por mim duas dúzias de camelos. Vinte e três deles ostentavam suas alcovas, como se únicos fossem em meio ao deserto. Em seguida, percebendo aquele “camelo negro” dentre os outros, para

Desertores

Estive sentado à mesa da sociedade. Achavam-se ali muitos convivas sorridentes; outros ocultavam uma dolorosa angústia, ainda que igualmente ilustrassem os dentes. Enquanto se servia o banquete, alimentando, não democraticamente, poucas bocas

Um quase epitáfio

Tenho algumas coisas a dizer, antes que haja meu último suspiro. Não que eu esteja vislumbrando os olhos imediatos da morte. Contudo, resolvi me precaver, como teria feito Brás Cubas se em

Você tem um cigarro?

  A perplexidade da sua presença contunde, implacável, minha paciência; como o desconhecido teme o belo, e o artista acovarda os olhos, mas jamais o ímpeto árduo do, e por você súbito,

Meras variáveis

Houve lágrimas e medo no lugar do habitual sorriso. E o lindo rosto de outrora, agora noutro sentimento seco de abismo, debatia-se sobre solo tardio. Haveria literatura dessa forma? por certo que

O atentado

Embaixo do braço, ela carregava uma lancheira vermelha. Vinha vazia, exceto por meros pedaços de pão seco, restantes de uma refeição inferior à sua necessidade. Seu rostinho era tapado por uma burca

Mesmo verde, verde mesmo

Verde não são os olhos, verde é a vida verde não é o mar, o som, a partida verde os sustenidos, não fossem negros verde seria eu, não fosse ingênuo verde seria

Os jardins jamais falecem

Os jardins etéreos repousam ao fundo no cenário traiçoeiro do verossímil; ainda que tente enganar-me o futuro entre quais flores far-me-ei visível Houve já muito grosso sangue jorrado pela ferida pelo acúleo

Navegar é preciso, nas falácias humanas

“Há bastante tempo tenho eu, Álvares Soares, me obstinado a desconstruir conceito complexo como a felicidade; tal desconstrução parte de pressupostos filosóficos, e também de observações profundas dos ideais ingenuos que sustentam

The man with sad eyes

Be opened the doors of perception, and my gods you be finally released. This finest man arrive at a desert. The sand is nothing but dust. And meanwhile his lips are very

Cores, são apenas cores

Quando a confusão sentir-se confusa de si mesma, então, poderíamos nós, talvez, esperar por um entendimento concreto de algo. Claro, não consideremos o fato de nos confundirmos com sentimentos e cores que

Como uma mula

Como uma mula, estou estancado no mesmo ponto. Se chutam-me o traseiro, não prossigo. Se dizem-me para ficar parado, bem, ali mesmo estático fico. Uma estaca da madeira mais podre perfura meu

Não deixamos de nascer

Por que o mar é sempre azul? por que o céu não tem cortinas? por que fugir do furacão? se nossas frases despendidas falam muito, sem nada a dizer Por que o

Condemned’s notebook

The flowers provide me with colors that I can’t see. These gardens are all overgrown of an inescapable sorrow. The final harvest is going to fail, unless I become the land in

Uma noite mal dormida

Cansei de chorar em verso e sorrir em prosa, de ficar evitando o gerúndio. Cansei de correr, andar, nadar, vadiar e cair nesta busca infinitiva pela melhor rima. Cansei de blablablás onomatopeios,

Um dia de sorte, para Murphy

Sempre saio de casa às oito horas matutinas e, via de regra, estendo no varal as roupas à noite. Naquela manhã, porém, atrasei-me em minutos preciosos porque não estendera as roupas na

Desmatamento da vida

Suas florestas foram decapitadas; seus galhos em húmus se tornaram; dessas copas pela vida decepadas vindouras raízes se alimentaram Encham-se! corações equatoriais com lágrimas de rostos enrugados o pranto pela lisura do

Sua pintura, meu quadro

A pérola de seus olhos reluz forte e de minha parte, sou assim cegado se sinto sua presença ao meu lado, eis sua imagem a minha maior sorte Inspirações antigas, elas falharam

This is the end (Este é o fim)

Seus olhos estavam esbugalhados, umedecidos pela tristeza incólume, como são inevitáveis os rochedos em abismos, embora tal peso da vida fosse necessária pedra para atingir seu íntimo mais sólido, e mais doloroso.

Sobre as malditas jornadas

As mãos moviam-se ávidas, trêmulas, golpeando o ar de maneira drástica; este mímico assim punha sua máxima: vidas magníficas são vidas inteiras Não essas existências já sepultadas, em cuja lápide lê-se no

E se mergulhássemos nos olhares

Somos acostumados aos contatos superficiais. Fugimos das grandes profundidades, como se nas baixas altitudes nossos pulmões não pudessem expulsar o gás carbônico. Para respirar, portanto, faz-se manter as cabeças com as bocas

Quadros necessitam serem pintados

Seus cabelos são uma rica flora compondo florestas geográficas; eis a seiva que, em ti, vigora e flui em mim de forma drástica Flores murcharam às suas costas e um jardim faliu

Soneto às claras

Seus versos vestem-se doutra estética de uma brevidade íntima, mas profunda como se minha percepção fosse astuta por vestir-se agora com a sua dialética O flagelo do mártir é mais dolorido mas

Desencontro materno

Passeavam ambos, homem e mulher, de mãos atadas e dedos entrelaçados; faziam-no em passo vagaroso, sem ocuparem suas mentes com seus problemas cor de trevas negras, ou aparentemente insolúveis. Pelo contrário, aquela

Você é minha?

Apressado em ser egoísta, covarde fui, quis dissimular, desejei minha imagem, porém, em tempo de me retificar, encontrei seus olhos implacáveis. Olharam-me contundentes. Suas pálpebras, mais lindas que o piscar de qualquer

Não inventei estas histórias que me sussurraram

As paredes estavam pintadas de branco. Assim acordei. E desde o despertar, comecei mais uma sina; mais um dia, diriam-nos os leitores das auto-ajudas desajustadas, vendidas nas lojas que não entro; e

Soneto da amizade

Meu velho amigo, longa-data me maltrata sem sua presença antes costumaz e agora muito escassa, como pérola afugentada mata-me, se assim o tempo trouxe a falha Aquelas, que constituimos entre amigos e

Assassinato no quarto andar

Visivelmente, enxergavam-se os sulcos dos degraus da escada. Cada um deles tinha em sua ponta uma placa de mármore. Em cor de gesso, muito gelado em sua textura, misturado com algumas pintadas

Quando os dias beijam os lábios das noites

As noites em geral são sombrias. Reservam em seu seio o leite mais negro do universo. Algumas vezes sinalizam solidão — como se observa pela baba, que escorre, do canto da boca,

O homem sem idade

Havia uma velha lenda que dizia: tu és a tua idade. Não é que descobri, realizando meticulosa contagem dos anos, que se tratavam de falácias que me ensinavam na escola, ou nas

Escapada de mestre

Contarei a história deste mancebo. Um garoto jovem de poucas intenções. Não, retifico-me a tempo. Muitos eram os objetivos daquele ser jovem. No entanto, trazidas as máculas da juventude, bem se sabe

Esses versos em prosa não são tristes

Imagine-se a vida como um novelo. Emaranhado num punhado de fios, lutamos contra os nós. Rebate-se, em contorção aguda, de todas as direções da emoção, para que se desentrelace esse impactante jeito

Sobre o umbigo humano

As linhas tênues dos lábios são cinzas; Como nuvens cirros que se pintam sem cor fazendo das dores sofrimentos em lágrimas Que decaem das alturas que não se alcança E nesta esperança

O não já se tem, mosqueteiro

Havia uma atmosfera densa caindo sobre os ombros dos presentes. Alguns por isso andavam agachados. Outros, mais imponentes, ou curiosos sobre a condição alheia, erguiam as sobrancelhas. Admirados, tão logo viam outrem,

Um domingo ensolarado

Você pode se confortar; está permitido. Imagino que essa sensação, com nascente em nosso próprio impeto, pensamento, seja partilhada pelos meus compadres de espécie. Este Sol arde no rosto. Contudo, antes de

Uma declaração inútil

Você me é precoce, e como uma tosse me faz escarrar tudo de ruim em mim como se neste tempo eu até pudesse me redimir do anseio sobre meu fim Fios morenos

Tão seu

Um olhar, um sorriso, um jeito irreverência delicada, um feito seu, tão seu, sempre seu… quem dera, a mim fosse destinado tudo que é seu quem dera, menos distância talvez, menos ignorância

Seu momento favorito

Olhos que se parecem, e não perecem são assim as imagens de ambos vocês que estremecem os corações que vêm a sinceridade da fraternidade cortês A genética lhes trouxe a semelhança sentida

A conversão das lágrimas

Se seus olhos chorarem essas lágrimas terei fortes lástimas pelo nosso sofrer; se em seu rosto comerem minhas traças irão as feridas se fechar ou se torcer Assim, fazendo curador este meu

Minha savana

Condenem-me vocês, turistas da vida com más almas. Hoje sou apenas uma fagulha de uma chama que não quer apagar. Cansado de ser assim, menosprezado pelo pouco, quase inestimável, pelo julgamento desses

A flecha envenenada de Eros

A Paixão, furtiva e silenciosa ladra, veio toda voluptuosa àquele ser frágil; furou-lhe a flecha de Eros envenenada, revigorou-se o espírito antes deplorável. Entretido com a droga das amabilidades incapaz fora de

O discípulo de si mesmo

Ele não confabulava, ou conjecturava, ou vislumbrava como se consultados oráculos em que jaziam deuses gregos, sobre seu futuro. Diz-se que planejamento era algo apenas realizado, se fosse isso orquestrar o próprio

Meu trágico arbítrio

Andarei por outras trilhas nesta areia que não sejam feitas de pegadas outras afinal não foram estas minhas escolhas; tal arbítrio livre minha alma incendeia Em chamas posto meu espírito sob o

O restaurante

A rua se agitava como costumeiramente exigia o ambiente urbano. Carros importados, que misturavam-se aos outros veículos de menor valor, cada um buscando ostentar o seu próprio valor, perambulando pelas vias. Andavam

O joio e o trigo

Violeta não é margarida, mas são ambas flores, e nas floriculturas entretanto se encontrem arranjos com as duas pétalas de cor distante. Filosofias atenienses não são espartanas, como fica provado pelo colossal

A mulher da vassoura

Embora femininas, suas mãos possuíam calos, em marcas duras ressaltadas abaixo do início dos dedos. Precisamente na posição onde se colocava a vassoura, instrumento seu diário. Seu ofício fora estabelecido sobre os

Estrofes íntimos

Miro em seus olhos palácios perdidos dantes não encontrados por esta fera em que sou nestes corredores vívidos porque retumbam as paixões ferrenhas Dada a quimera desta vida implacável, queima-me por dentro

Na mansão dos vivos

Ao que construíam onde eu morar iria tive a ciência precoce de que não há construção eterna à qual lar chamaria; a lágrima do tempo faz tudo desmoronar Fundaram casas sagradas nos

O achado

A campainha da casa tocou, e ressoou, duas vezes seguidas. Como era já algo tarde, o céu não brilhava muito, a mulher fez questão de certificar-se antes. Foi até à porta e,

Pelo que realmente somos

E se disséssemos o que realmente pensamos? Algo como a genuína expressão de nossos desejos. Desejoso de mim mesmo, pus-me a buscar a umidade da minha língua, para que meus ouvidos escutassem

De onde vim, mas apaguei em minha certidão

Um sol cabisbaixo caminhava em tom decrescente; decaia um semblante, ou decaiam dois; já que estavam eles em grupos de quatro, ou cinco, houve decaímentos múltiplos; mais que quadrúplos ou quintuplos. Se

Aos coveiros de carneiros

Malditas nuvens não se parecem jamais elas como uns carneiros, observo-as no alto, e elas tecem uma dança dúbia de movimentos O que igualmente assim se move? O olho irrequieto do coveiro

Por sobre o rio das angústias

A apatia que lhe reflete me traz, como vento indolente, rajada essa do ar que tenho e o quero lhe dar; há neste céu inúmeras atmosferas! Quem sabe sobre outras nuvens lhe

É de couro ou de carmuça?

Havia muita gente em meu entorno. No entanto, já camuflado em meio à selva ambiente, a música alta que rebatia os tímpanos, a iluminação intencionalmente fraca que dilatava as pupilas, a lata

Sacrilégio existencial

Entre as divagações que ocupam a mente, não poucas, por sinal, ressaltam-se aquelas do espírito, ou da alma; ou, ainda melhor colocado até por aquele não versado em avançadas ciências morais, destaca-se

O sonho de Dalí

E se acordássemos tal vez e o mar vermelho estivesse, de certo um espelho, tipo mar avermelhado seria? E se o céu não tão alto fosse, as nuvens de verde algodão, sob

Almas fajutas também se justificam

Desde muito tempo não se viam. Suas visões não foram exercitadas, no passado recente, senão por imagens em suas lembranças; memórias que tinham cores e formatos, e eram conscientemente vivas; contudo, embora

A vida com ela é

Como de costume, voltava do laboratório a pé, confabulando comigo mesmo sobre as ponderações da vida. Em especial, nesse dia, econtrava-me meio triste, preocupado com o mestrado, carreira, trabalho, entre outros assuntos

E assim ocorreu na noite anterior

Os dois amigos se encontraram, não por acaso, moravam ambos próximos um do outro, e principiaram a conversa. Nisso, a luz da lua aumentava seu furor, à medida que descria o sol

À vida se assiste

A noite caía lentamente, enquanto, para muitas pessoas, anunciava o término do expediente. Hora em que, inseridos nesta sociedade estética, uns vestem-se com roupas de ginástica; outros, mais ou menos enganados que

Meu tempus fugit

Existem determinados tipos de pessoas. Não como uma tipificação como estereótipo, mas como uma classificação mais subjetiva. Por exemplo, há aquelas extraordinárias pessoas com quem o tempo cessa. Não importa se ainda

Noturna

Quando me furtei logo percebi e num cordão de pura seda sem grafia escrevi umas palavras penduradas que sem nome, nomeei como um louco entregue a sorte ao fim da noite despertei

Por detrás do véu negro dos olhos humanos

Inicia-se o conto pela narrativa da prostituta. Ela, como de costume, vestida em sapato de salto alto, vestido colado ao corpo, aderente às formas que a sociedade avidamente adora, com o tecido

Da genuflexão dos meus e seus joelhos

Quando as lágrimas caem, ao atingir o solo, muitas vezes juntamente aos joelhos, regam elas até o mais árido dos terrenos. De uma forma antes não pensada, essas gotas salgadas de alma

Meu excerto de 17 de Agosto

Hoje não precisarei encontrar palavras; elas vieram-me já de encontro, de súbito, como as pessoas estimadas com as quais topei. Não foram trombões, nem ombros chocando-se como se não se conhecessem. Não.

Cá estou a esmo

De minhas angústias não tomas partida, e ainda bem que não o faz, afinal, cada qual com seus demônios e exorcismos. Hoje o espelho remeteu-me ao existencialismo. Uma crise? talvez. Liberalismo, autoritarismo,

Carregado pela mão da vida

Ela pegou a mão do seu filho. Eles caminharam, então. Os corredores, por onde percorriam com seus pés de mãe e ingenuidade de filho, eram torturantes a cada pegada. Estavam no térreo

Dos contatos inusitados, que até fazem aniversário

Nestas comemorações, incluso eu me deparo com sorrisos outros e não fossem meus, meus eles são já que dessas famílias tive véu a cobrir-me o olhar de criança adultos sendo os outros,

Escrevo mais em uma frase do que muitos não registram em uma vida, porque meu pai ensinou-me, sem saber, a ser poeta.

Prezado progenitor, sem aviso, como são anunciados os sentimentos na televisão, notei que meu vazio interior era mais vazio sem a figura paterna. O extermínio, inevitável ao espírito livre, das noções de

Feliz aniversário!

Fascina-me, por vezes, o olhar vão-se as primaveras, o tempo entretanto, o brilho dos olhos principalmente se há o que brilhar permanece firme e intenso uma doçura oriental alegrou-me e a noite,

Na república parto forçado

Três firmes batidas na porta ressoaram por todo o quarto. Deitado na cama, com o lençol amarrotado em um canto do colchão, abri os olhos. Não conseguia me mexer. A ressaca consumia

Comum

O que é sempre belo, não é belo para sempre. E a ofuscada sensação de ter-se um elo, contrapõem-se com pouco, ser sincero, um erro condescendente. Os meus heróis não morreram de

Na terra do ontem

Estavam ambos assentados, um em frente ao outro, encarando cardápios cujos intens, em algum momento quase esquecido, foram seus olhares recíprocos. O estofado das cadeiras, de couro raro, confortava-lhes muito, exceto pelo

Sonho meu tão seu

Sem cores outras, sonhava eu tão somente em preto e branco até que por um súbito encanto seu belo espectro me apareceu Talvez viesse-me sempre você ao meu repouso inconsciente, agitando-me de

Versos clorídricos

Ao solicitarem versos de pronto disse que não era esse meu ponto em rimar rapidamente uma farsa, para sorriso de pessoa desdentada. Não as conhecia, nem hoje quero senão rimar pelo seu

Erros perfeitos

Não tive sequer tempo de contar os sobrevoos aquém do meu céu, nos quais sequer havia permissão para com forasteiras asas planar Mas, falta de céu não poderia ser; talvez negro espaço

Como um comboio agonizante

O piche frio cobre o asfalto sobre o qual eis a cavalgar tropeiros num cubo metálico nos cotidianos de mal-estar Se rude inverno, que importa? Dedo trêmulo digita no celular palavras cálidas,

Se no purgatório, por que o inverno?

Trêmulas mãos gemem-me o bolso! Ah, em tais invernos propícios, empobreceram-nos ricos sonhos: frios demais para serem vividos! Voz amiga, sem quaisquer afonias, gritou-me horizontes muito seus, ou meus; eis tais jornadas

A cismada travessia

Sejam verdadeiras minhas palavras, e real e profunda minha literatura, tornar-me-ei vítima de mim mesmo; Eu assassino, que mata escrevendo. Retirai minha pele de rinoceronte e cubrai com ela quebradiça ponte em

Os dois lados da literatura

Em certo momento, sobre você tenho último nojo repugnância pior que fome sobretudo, asco afoito Serve-me este copo pobre com Chopp de lixo escroto sua benevolência mata e só cria nestes versos

Eis essa criança que não sou eu

Suas mãos eram pequeninas. Quase não conseguiam abraçar as moedas da esmola recebida. Quando pedia, fazia da maneira como vira seu irmão mais velho realizar. Dissimulava uma desculpa qualquer pelo dinheiro. Pelo

Carta aos ignorantes de sangue coagulado

Não se trata, e jamais tratar-se-á disso um assunto pertinente, de lesões corporais. Portanto, passarão por nós muitas pessoas superficiais, suscitando lutas sequer com sentido. Sabem tais seres minoritários pouco sobre as

Uma lanchonete e os olhos que não mentem

Eu a via com frequência. Usualmente, nas madrugadas. Em meus regressos à casa boêmios e por vezes solitários. Seus cabelos compridos e negros achavam-se aglomerados de modo organizado, em forma de bola,

Poetas não vão para o céu II

Ouviu-se dizer que os poetas não vão para o céu. Talvez seja meu epitáfio, tamanha confusão dos questionamentos díspares que permeiam os sonhos. O que diria Froid se navegasse pela nossa mente?

Soneto ímpio

Eis este ser muito anêmico enferrujado, e até aflito; à sua curvatura eu assisto: para baixo…para cima… Seria esse o tal clima dos povos, insossos, e feridos julgando os seus espíritos pelo

Poetas não vão para o céu

Para que sentisse a simplicidade, tive de mastigar complexos sentimentos e intragáveis feridas. E assim, em estado perplexo, veio-me sua imagem bela à minha frente. Um momento de quase epifania, em que

O repetidor

Enquanto escorre a vida, apresso-me na dianteira das cenas vivas, já lidas, ah! repetição costumeira Porém, repetir até convém assim vieram os sorrisos, e as pestes, e as curas. Meus versos dizem

Meus 7 mandamentos subversivos

1) Conversar, independente de com quem, como se fosse o último diálogo; 2) sentir o beijo como se precedesse o sexo com uma viúva negra; 3) respirar o oxigênio diante da sua

Soneto de exílio

Se me isolasse de súbito, de tudo, e assim de todos achar-me-ia só, sem luto; sem o sofrimento dos povos Respiraria o ar mais denso, porém puro, de se respirar; teria meu

Pelo que somos todos réus

Estávamos dançando todos em volta do fogo que arde até que ficamos absortos pelo anúncio doutra morte Boquiabertos, estupefatos demo-nos conta outra vez que a chama tem apagos, e a vida não

Mães choram

Encontravam-se, mãe e filho, sentados de fronte um para o outro. Pelo rosto moreno, de uma textura sedosa e pacífica, escorria outra lágrima, outra vez, outro pranto. Mães choram. O filho não

Delicada Confusão

Ironia da vida, não! poeta medíocre que sou com a pena na mão escrevendo o pulsar do próprio coração ensandecido por pouco um sorriso e um olhar ah… delicada confusão da inocência

Cara ou coroa

Encontramo-nos nesta sina: os dois lados de uma moeda cuja probabilidade desatina quando você cara, e eu coroa Vil metal que me destrona sempre que penso na vitória a sua ausência me

Sentimento vagabundo

Envolvo-me de todo no instante não obstante, acerto o prumo como aquele fumo, fino e tardio têm-se eficácia, preenche o vazio abençoado fogo do isqueiro vê-se vida no final do cinzeiro Sem

Atemporal

Em ti, percebo uma junção melancólica de passado e futuro; poderias, por exemplo, ser inspiração para escribas egípcios cautelosos com suas penas e, sobretudo, com seus papiros poderias, todavia, ser o aprendizado

Meu soneto de condenado

Tais os extremos da desavença: o que meu equívoco me provocou, tornando-me sua última pressa, e a urgência que o tempo matou Sua beleza muita me dilacerava agora, eis um poeta enferrujado.

O parto

Estavam no campo, cinco horas distantes da cidade, e do posto médico mais próximo. Escurecia. E o vento quase noturno atravessava com força as árvores que rodeavam a fazenda. O lugar era

Diria eu

Que sacrilégio trouxe teu olhar sobre mim? sonhei com as nuvens, céu azul imenso e acordei na chuva, trovoadas ao relento por demais efêmero foi esse momento beatificamos juntos a contradição olhares

Existe céu no meu inferno

Seu abraço vem, embaraça, enlaça, e depois me traça delineando uma irmandade que desafia a minha idade Dancemos esta nossa dança bebamos a nossa juventude viva comigo este segundo somos nós contra

Último grito de desespero

Sento-me, mais uma vez, sozinho; acompanhado apenas pelo papel e pela escrita; empunho uma caneta, não um lápis, sem borracha, afinal não irei pecar, ou errar, ou ludibriar. O vento choca-se contra

Meu soneto invertido, perdido

Quando foi que nos perdemos? E tal tempo será que passou? Quando perdi o nosso tempo?! Agora, com ampulheta vazia, não faz sentido contar nada areia que conta minha vida Ceguei o

Para onde você foi?

Triste a tarefa de perder uma mulher. Você ainda nem a ganhou, e lá se vai ela pelos ares; não está mais com você; evaporou-se. De qualquer maneira, ela foi substancial. Durou

18 de Abril

Certa vez, andando pela rua, em pele nua despertou-me a ideia de que não estou só suscitou-me o sentimento de ser acolhido, abrangido, pelas asas de um anjo: Mãe! Mulher de atitude

Com uma alavanca, movo seu mundo

Ele falava como um grande, assim, gradioso ele era, vivia liberto das grades por quê? alforria da treva No verão, sol lindo e apino ele roubou o astro para si amou, matou,

Sucessão do tempo?

Pele alguma não se estica alguém portanto está velho mas, as rugas não são vida a vida é o próprio espelho Hoje há o exagerado reflexo das pessoas que não se vêm

Teoria da incerteza

Não existe vida sem perdas e, sem perder, não ganhei! a teoria do inevitável, ah, falha, se sem você ao lado Volto paupérrimo, e incauto com a mão no bolso vazio; tal

Agressão poética

Tarefa árdua, que me restou; minha escápula então quebra no teto alto do seus ombros tenho ainda a garra de fera Duro arranhar outro coração fiz, então, rasgar eu mesmo sou assim,

O que não tenho

Ofereço-te meus dedos pois, após tocarem pétalas sensibilidade neles há sinceridade também, talvez Ofereço-te a cor dos olhos pois, brilhantes ficaram deparando-se contigo felizes foram, talvez Ofereço-te o que não tenho se

Desabafo do meu ser

Já não há espaço para isso: ser sufocado por mim mesmo, à esmo não teria compromisso não fosse a ânsia em renascer Victor Hugo me trouxe três condições desta existência que chamam

Agora, então, o depois

Falemos sobre antes e depois; terminemos pelo emocionante, findo pelo mesmo precípicio; não irei subi-lo, ah, salta-lo-ei Sob um luar, deslizo na borda do compensado que compensa; sou essa mão então desgastada,

Primeiro o antes

Falemos sobre antes e depois; comecemos pelo emocionante, início que precede precípicio; não irei pula-lo, irei descê-lo O peito estoura com o coração que salta pela boca, que treme, e sorri junto

Versos inevitáveis

Minha agonia hoje é loira; não são assim seus fios? A saudade é de outra cor; sou camaleão da sua tez Meu próprio verso tem inveja de nós, que somos uma pele,