RIO

Nem sempre me senti assim, aturdido pela melancolia das lembranças. Não há na língua a doçura do momento vivido. Ou nos olhos de agora, o aplauso ao filme da vida, já demasiado visto pela mesma mente. A repetição incansável dos lugares urbanos. Os cumprimentos educados nos corredores, mediante faces sorridentes apenas por uma janela de instante. Como poderia haver encaixe no civilizado, se existe no hábito mais polido a ocultação do desejo mais oposto? Porque seria impossível sentir sempre o que dizem os anúncios nas telas. Os livros de auto afirmação. Ou os cartazes felizes nas ruas.

Seria mesmo inadmissível à alma aceitar essas vestimentas pesadas de inverno. O corpo, todo ele, ante a gravidade, suplica por leveza. Tão chocante não poder chorar nossas verdades mais profundas; como se houvesse um afogamento punitivo nas lágrimas expostas. E a lembrança de tudo isso quanto nos corre cá dentro parece em desacordo com o que transborda lá fora. Muitas vezes me senti assim, como um rio que vai de encontro ao oceano.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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