Tag Archives: Vida

XC – Soneto dos noventa dias

Sempre que estive morto, ao abrir os olhos, O precipício era o que me trazia esperança, À desaparecer todos os pesados desconsolos Que faziam cruzar as mãos de sua lembrança. Um mundo

O serviço

Notei, mesmo perdido na contagem das folhas à minha frente, o tom melódico de sua voz, ao passo que falava de seus filhos. E pensei como nunca sentiria aquela doçura materna. Aquele

O fim de semana ensolarado

Uma senhora surge na sacada. Suas rugas brilham sob o fulgor do sol. No varal, ela pendura com paciência um pano de prato; imagina-se que todos os dias ensolarados ela o faça

De olhos cerrados

Na última vez que conversei com Fernando Pessoa, uma de suas pessoas enlouqueceu-me brandamente. E logo esqueci-me do que lia, interrompendo o passear dos olhos pelas linhas retilíneas; eis que voltaram-se-me para dentro

Colina abaixo

Juntem, todos, o que lhes cabe numa mochila, e me sigam colina abaixo — comigo ou não; Despreocupados com o que possam encontrar, ou que ou a quem as perguntas fazer, respostas

A vida é minha metáfora

Dissemino na escrita minhas epidemias. Morrer por palavras é superior a falecer pela mudez da não expressão. Os amores que tive, e não pude cativá-los, são meu troféu enferrujado pelo sentimento. Buscava

Quando chorei pelos meus avós

Lembro-me de seus gestos que não sabiam escrever no ar. E depois da possibilidade de cometer todos os pecados, os quais apenas uma criança teria a coragem de aguçar sob a penitência

Na fila de espera

Lembro-me de sua perna direita menor que a esquerda. Mas ainda assim não mancava. Abria o portão todos os dias para os transeutes do condomínio. Nunca tive apreço maior ou menor por

Olhos envidraçados

Meu grito tem se transformado num sussurro. Posso me comunicar com todas as instâncias desse modo, ao mesmo tempo em que escuto minha própria voz. Meu pensamento é meu castiçal com muitas

Licença para voo

As nuvens choram fios de cristal Os lagos de meu peito se inundam Os meandros do que me é visceral São o que meus demônios estudam! Na esquina, um filósofo da cólera

Diário lúcido de uma alma embriagada

Sento-me aqui para escrever o relato mais sincero possível. Irei esclarecer todas as partes ocultas pela neblina da negligência. E trago-me como personagem fictício, senão humano. Comecemos, desse modo, pelos pudores vistos

Os jardins jamais falecem

Os jardins etéreos repousam ao fundo no cenário traiçoeiro do verossímil; ainda que tente enganar-me o futuro entre quais flores far-me-ei visível Houve já muito grosso sangue jorrado pela ferida pelo acúleo

Desmatamento da vida

Suas florestas foram decapitadas; seus galhos em húmus se tornaram; dessas copas pela vida decepadas vindouras raízes se alimentaram Encham-se! corações equatoriais com lágrimas de rostos enrugados o pranto pela lisura do

Minha passagem pelo tribunal maldito

Há uma distância justamente necessária que me permite observar, sentir o mundo. Contudo, provém disso a injustiça de também ser o mundo; sentir a mim mesmo tanto quanto ao outro. Desse fato,

Médico de minhas entranhas

A sensibilidade de suas mãos purifica infecção de ferimento ela coagula a vida dos sãos, e brinda os pulmões com alento Medicina de câncer remissivo remove tumores com austeridade e, excelente curadora

O casebre

A casa não era muito grande. Quadrada, tinha sua largura e comprimento curtos. Longas ripas de madeira revestiam suas paredes. Madeira velha, degenerada pela força do tempo, que há muito costumava bater

Missa de sétimo dia

Vida volátil, findável passível de violação decisão ausente de opção No caixão dos grandes há corpo falecido porém cercado por flores de jardins que acalmam; flores que nunca desbotam Tudo padece, a

O outro lado da coisa

Aos que acham que só falo de festas e mulheres, digo que também sei escarrar na cara da sociedade! Assunto deverás relevante, ele não hesitou, e para si selecionou destino de grande

Inflação da moeda humana

Já contou seu dinheiro hoje? Sua grana, as cédulas que recheiam sua carteira elas te importam de alguma maneira? Commodity fajuta de valor desvalorizado seria esse o preço para seu amigo ao

Crítica mundial do mundo

Olhos desinteressados anunciam e denunciam que aquelas vistas sequer foram utilizadas nunca viveram as desventuras aventuradas não saborearam prato fio após a meia-noite Em um impulso irrompe-se aquele princípio, aquela amarra que

Sem foco

Por certo, de teor entreaberto me apego, absolutamente absoluto de lado, controverso, louco e aberto à vida, à tudo, completo e certo Vivendo uma liberdade libertina que arremata aquele a quem atina…

Vida de cão

Temos vivido numa sociedade canina. Por certo que o estresse cotidiano, às vezes, teima em trazer á tona as palavras “vida de cão”. Todavia, cabe, aqui, ser ressaltada a necessidade de expansão