Category Archives: Poesia

O sinal

No espaço entre os carros interrompidos sob o semáforo, ou no interior dos passageiros o vermelho sinalizado, retumba a vida moderna com os coágulos do pretérito; porque independe ao homem livre tais leis

Doce veneno

Um doce veneno saliva-me de gota em gota, Nas manhãs úmidas em que precipita o tempo A injetar-me no crânio pingos de desespero, Com os quais fabrico o antídoto da escolha Em

XC – Soneto dos noventa dias

Sempre que estive morto, ao abrir os olhos, O precipício era o que me trazia esperança, À desaparecer todos os pesados desconsolos Que faziam cruzar as mãos de sua lembrança. Um mundo

Mal do Meu Século

Fora eu aos secos e molhados e solicitei: — Vendam-me um revólver e uma agulha… Atirei então em meu coração e sangrei. Desejava ver quanto sangue ele expurga, Pela ruptura da bala

Vapor confinado

Não existem quaisquer sinais nas paredes atrás do fogão. Enquanto o acendo, numa das bocas cuidadosamente coloco uma panela com água. A única sinalização, principiada a fervura da água, é aquela trazida

Duas vezes

Não quero me apaixonar, Porque vi pássaros voando no céu. Eles voavam em círculos, Como se dominassem meu ar; Estipulavam-me ruidoso escarcéu, Atando-me belos, penosos vínculos. Não quero me apaixonar, Porque pássaros

Através do vidro

Não faria diferença alguma se fosse agora, amanhã, daqui dois anos ou cinco décadas. Porque hoje, ao ver através do vidro semi-embaçado, posso olhar para o céu pálido e fazê-lo viver ou sepultá-lo

Arquitetura dos elementos

Em suma cumplicidade ao vento, A areia tão só perfaz sua direção; Grão após grão, violenta, A pequenas pacientes rajadas, Em ameaça inútil aos meus olhos, Que irritam-se se eu os coço;

A ocupação

  Não se preocupem, pois escancarei as portas férreas dos hospitais a todos. Não se preocupem, porque do mesmo modo, passando acima dos homens seus códigos, fi-lo também trancafiar as autoridades com

Servir-me fui, quando sentei, você não estava mais

  Vi-lhe num susto, assim, de abrupto, E na obra de arte fiz-lhe analogia; Como um entusiasta que a tela admira Sabendo que ali eterno é o segundo. Mas diante do quadro

Tédio com T

  São nestas sextas-feiras falidas, de chuva caída, Que se ainda entedia quem ao tédio imune diz ser. Queria então era sair à rua; ir ao freezer Da loja da esquina, apanhar

Colina abaixo

Juntem, todos, o que lhes cabe numa mochila, e me sigam colina abaixo — comigo ou não; Despreocupados com o que possam encontrar, ou que ou a quem as perguntas fazer, respostas

Mapa-múndi

Mantenho, ao lado da janela aberta de madeira, já pelo tempo incansável apodrecida em seus cantos, um gigantesco mapa-múndi, apregoado à parede de cor indistinta. Desse modo, sempre que deposito meus olhos

Folhas ao vento (Leaves in the wind)

  Voe com o vento, na direção Em que as leis não podem direcionar, Porque a minha autoridade Em pensar que o que eu desejo, No meu sonho que ao seu lado

Por quem os corações dobram?

Meu coração não está fechado para balanço. Nem aberto como se despede o inverno para que venham falsas primaveras. Meu coração é simplesmente o mundo. Desse modo, ao andar pelas ruas da

Soneto àquela que passa

Não tivesse o homem criado a linguagem, Ainda assim seu pouco dum profundo todo Revelaria palavras que jamais se esvaem; Sua presença faz da minuta chama o fogo, Com o incêndio d’alma

Ostra feliz não faz pérola

As culpas queimam como ácido. Quais seriam, então, as justificativas alcalinas a lhes neutralizarem. Todos os sofrimentos buscam ter sua explicação na sua causa mais próxima. Isso é fato inevitável até aos

Olhos de Lis

Teus olhos de lis fizeram-me um aprendiz quero ar desses pulmões ah… diria Camões amor é fogo que arde… não tenho mais medo pois, minha arte transcende meus dedos que escrevem agora

Licença para voo

As nuvens choram fios de cristal Os lagos de meu peito se inundam Os meandros do que me é visceral São o que meus demônios estudam! Na esquina, um filósofo da cólera

Crepúsculo dos Ídolos

A estátua de mármore, mas com pés de argila, Para fronte aponta seu lábaro de falsa glória Ostentando o sangue que derramara na pista, Para que cravasse seus Ídolos, sua escória! Ó,

Entre cores e vidro

Cheguei atrasado no meu próprio enterro pois, quando beijei a morte na boca era outra boca que eu queria beijar como é triste perceber que esse mundo inteiro fadar-se-á à mentira do

Perto ou triste

Longe, longe, perto ou triste porque insiste e não desiste de sorrir sempre para mim Longe, longe, demais até mas, fui a pé e o seu José disse que a estrada não

Algoz de todos nós

Fujo das lágrimas tal qual o diabo da cruz sentimento que faz jus, ao meu porém contudo, faria tudo, não fosse o que não fazer banho-me em noite de lua perdida, sem

Soneto enferrujado

Se das milhares de praias pudesse ser eu tão apenas um grão de areia qual ser-me-ia a lembrança rasteira a encher-me o espírito e inundasse? Seria da memória relembrar burlesco que ao

Poema pintado

A única consciência que não pesa é aquela que não vive; O anteparo do quadro retratado seria a musa sempre presente ao pintor que ainda não faleceu? A concepção de tudo soa

Eterno incompleto

Eu com os olhos arregalados, ela com a privação de ver o que já não quero; Eu com minha boca cheia de dentes, ela com a língua queimada, que não sente mais

Novelo cardíaco

Fiz-me, entre um abrir e piscar de olhos, um pretenso teórico e investigador. Elaborei uma teoria sobre a composição humana; mais precisamente sobre o coração dos homens. Menos um músculo cardíaco, dosado

Poetas não sobem pódios

  E se aqui não houvesse a competição Seriamos todos iguais uns aos outros À medida que exibimos outros colossos O pódio iria à falência, e não em vão Todos comporíamos os

Quando as fraquezas são qualidades

Por que o martírio da fraqueza, se ela existe em todos nós? Por que o enaltecimento da força, se de profundezas trevosas e sombrias muitos de nós nos levantamos. Existe um questionamento

O que Einstein nunca enunciou

Resolvi hoje testar as teorias físicas, algumas delas. Desafio primeiramente as ondas sonoras. Senti elas, agora mesmo, tão fracas. Repercutiam o som de corações alvoraçados, até o momento em que foram interrompidas

About the intersection between humans and ants

That’s alright, little ant. You can bite me and seek your next piece of sugar. There are no worries about your feelings of survival. Your antennas address the deep necessity of eat.

Heart skydiving

This blue sky seems to high but my wings are too large and by now I can tightly reach the white sun, the yellow moon and for you make them switch There

A vida é uma cascata

Imagino que muitos já tenham passado por isso: uma tempestade, logo após uma calmaria, em seguida uma fria brisa que faz lembrar os ventos forçosos que antes estremeciam. Sabe, há muita vida

As entrelinhas do Contrato

I. Das vozes frívolas as perguntas às quais tão só as suas respostas; faça-se disto uma moralista aposta e encontrar-se-ão ávidos jogadores a preencherem os largos corredores das casas de jogos da

Meu urro de ano velho, ou novo, tanto faz…

Palpita-me o coração diante dessas situações. Como se eu, por uma passividade incontrolável, pudesse enxergar nos abraços inusitados as mais incólumes reações. Recheado ao meu redor por tradições e vínculos convencionais que

Se meus olhos não fossem prismas

Passaram por mim duas dúzias de camelos. Vinte e três deles ostentavam suas alcovas, como se únicos fossem em meio ao deserto. Em seguida, percebendo aquele “camelo negro” dentre os outros, para

Um quase epitáfio

Tenho algumas coisas a dizer, antes que haja meu último suspiro. Não que eu esteja vislumbrando os olhos imediatos da morte. Contudo, resolvi me precaver, como teria feito Brás Cubas se em

Você tem um cigarro?

  A perplexidade da sua presença contunde, implacável, minha paciência; como o desconhecido teme o belo, e o artista acovarda os olhos, mas jamais o ímpeto árduo do, e por você súbito,

Meras variáveis

Houve lágrimas e medo no lugar do habitual sorriso. E o lindo rosto de outrora, agora noutro sentimento seco de abismo, debatia-se sobre solo tardio. Haveria literatura dessa forma? por certo que

Mesmo verde, verde mesmo

Verde não são os olhos, verde é a vida verde não é o mar, o som, a partida verde os sustenidos, não fossem negros verde seria eu, não fosse ingênuo verde seria