Jogo dos três erros

Assim que a noite caiu, resolvi sair. A vida que sobrevém do inusitado é muito mais interessante que as outras, aquelas advindas do planejamento. Quando se é sistemático, pende-se mais ao destino, menos ao acaso. Ora essa, não queria ninguém controlando o que me podia acontecer. Não desejava o destino.

Nesta mesma noite, entretanto, fui assinalado pela maldição dos três erros. Entre erros muitos e equívocos bastantes, vi-me, por um momento, uma vítima do acaso. Em uma flor de trevo, com três pétalas, pude contar três folhas de um desgraçado azar.

Primeira pétala. O crepúsculo da noite confidenciara-me bons presságios. Eu sentia-me um bom homem e caçaria boas mulheres. Sim, jogo de caça e caçador.

— Oi, uma cerveja, por favor. – solicitei à garçonete. Um sorriso fora-me devolvido, junto com uma cerveja long neck com dentes abocanhadores.

Cerveja na mão, raciocínio alerta. Talvez um longo primeiro gole fosse oportuno. Ah! Que gole. Olhei para o lado. Nossa! Era uma mulher, ou uma beldade. Uma verdadeira anciã da beleza e dos gestos. Aparentava mais anos que minhas reduzidas décadas de idade. Assim que a avistei, fui impulsionado em sua direção.

— Olá. Vamos dançar? – interroguei. Ela me fitou, analisando brevemente o pedido.

— Claro. – ela abriu um sorriso. Sorri igualmente. A dança sempre fora o primeiro degrau da escada do paraíso.

Na medida do ritmo sertanejo, eu sacolejava meu espírito em movimentos ousados. Queria surpreender aquele volume de experiência posto em mulher. Pode-se dizer que meu desempenho ia a passos satisfatórios, não fosse…

— Para quem é novinho, você dança muito bem – ela me disse.

— A dança é um ato conjunto. Se eu danço bem, é antes por você. – e ela aquiesceu. – E não sou tão novinho assim.

— Quantos anos você tem?

— Tenho 23. – ela arregalou os olhos. – Mas 23 não é tão pouco assim.

— Não? – ela inqueriu.

— Não!

— E quantos anos você acha que eu tenho?

Neste instante, diante daquela pergunta, fez-se necessária a mais justificadora das pausas. Olhei para seu rosto. Era um pouco envelhecido. Não muito velho, porém. Escorrendo pelos dois lados do rosto, um cabelo curto e loiro denunciava uma idade maior; superior a minha, pelo menos. Contabilizei um número. Estufei o peito. Estava decidido sobre quando aquela mulher havia nascido.

— Ah! Você tem 39.

— Não. Tenho 34.

34?! Como assim 34?! Eu atirara, pela culatra! Em diálogos futuros com uma amiga, tempos depois, descobri que a idade deve ser sempre adivinhada para baixo; como naquelas frases do vizinho solteirão que conhece a irmã da comadre ao lado: “nossa comadre, não sabia que você tinha uma irmã tão jovem”; momento em que a dita cuja da irmã abre um sorriso, e balbucia “nossa, minha irmã, que gentil é o seu vizinho”.

— É….você dança muito bem também. – desconversei. Constrangidos, dançamos um pouco, e fugimos em seguida.

Trinta e quatro segundos foram necessários para me recuperar. Mas que bola fora!

Ao passo do trigésimo quinto segundo, eu já estava restabelecido. No entanto, a gafe do momento anterior exigia uma redenção. Beberiquei mais alguns goles de cerveja. Mexi as pernas, os braços. Dancei no compasso dos observadores, que dançam, porém não se distraem um minuto sequer. Olhei para a esquerda. Para a direita. Nada de interessante veio-me ao campo de visão. De repente, senti uma mão pousar sobre meu ombro.

— Afonsinho! – berrou uma voz feminina, em minha direção.

— Capitu! – retruquei. – Como estão as coisas?

— Tudo ótimo. Ei, quero te apresentar… – e antes mesmo que ela introduzisse a pessoa ao seu lado, intrometi-me.

— Oi! – dei um beijo salgado no rosto da acompanhante de Capitu. – Muito legal você sair pra balada com a sua filha. – disse, convicto.

As duas entreolharam-se. Suas faces exibiam uma expressão de diarreia, mas que constipara-se pela situação.

— Não, Afonsinho. Ela é minha amiga. – congelei. Puta que pariu. Primeiro 39 anos, depois uma mãe que, na verdade, é apenas amiga.

Despedi-me rapidamente. Depois, fui até à chapelaria. Perguntei quanto custava para me esconder entre os casacos guardados. Maldita segunda pétala do trevo de três folhas.

Desiludido com as minhas próprias ações, resignei-me em tomar mais algumas cervejas. Sozinho, longe do alcance de qualquer pessoa, senti-me mais seguro. Minha fala estava me traindo, adulterando cada frase pronunciada. Uma cerveja. Duas cervejas. Ah! Para o inferno me conter, somente porque cometi dois pequenos erros. Quis tentar a fortuna da terceira parte do trevo, e fui à luta. Novamente.

Perambulei por poucos metros. Assim que encostei no balcão, avistei Fernanda. Que mulher maravilhosa ela era. Baixa, de cabelos morenos e cintilantes. Cintilavam no ritmo do meu batimento cardíaco. Seus olhos me espantavam, tão contundentes me encaravam. Tão logo seu olhar chocou-se contra o meu, caminhei até ela.

— Fernandinha! Como você está?! – o som estava muito alto, necessitando gritos para a comunicação.

— Afonsinho! – reconheceu-me, e me abraçou vivamente.

— Fer…o que você faz aqui?

— Como? – ela encurvou-se, no meu ombro esquerdo, querendo ouvir mais minha voz.

— O que você faz aqui?

— Ah, – soltou o ar dos pulmões, finalmente compreendendo. – hoje é meu aniversário!

— Nossa! Que descuidado eu. – brami, cuspindo minha goela para fora. – Então meus parabéns, Fernadenha!

— Fernandenha?!

— Porra Fer, quantos anos de vida?

— Fernandenha?!

— É ué. Não é todo dia que Fernandas fazem aniversário, não é mesmo? – e soltei um riso confiado.

— Tá maluco, Afonsinho? Meu nome é Júlia!

Baixei meu semblante. Sucumbi à minha sequência de fracassos. Como pude trocar o nome dela, queixei-me. Por certo que a Júlia fora trocada por uma Fernanda na maternidade; daí a semelhança tremenda. Todavia, não se erra nome, nem idade, em festa. Essa é a regra primordial e única da noite.

Lembro que, há muito tempo, li em um livro de Freud sobre o fenômeno da substituição de nomes. O pai da psicanálise viajava de trem, talvez rumo à Viena, quando foi aturdido por uma troca de nomes. Ele matutou, estudou o próprio equívoco mental e deu a isso uma denominação. Entretanto, não me recordo da nomenclatura freudiana para essa troca. Ora essa, se não me lembrei do nome da Júlia, por que diabos haveria de lembrar da classificação freudiana?

Um trevo e três folhas. Uma noite e três erros. E depois dizem que esse tipo de flora traz sorte. Ledo engano, fui rasteirado pelo azar triplo.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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