Para onde você foi?

Triste a tarefa de perder uma mulher. Você ainda nem a ganhou, e lá se vai ela pelos ares; não está mais com você; evaporou-se. De qualquer maneira, ela foi substancial. Durou a noite inteira, no meu pensamento.

Eis a descrição detalhada: cabelos loiros, que desciam abaixo da altura dos ombros, cheiro divino, derivado da fragância de Afrodite, claro, porém, era odor de matar qualquer sentido, tinha também pernas lindas, sobre saltos altos, elegantes como era toda a sua beleza. Até esticaria a descrição de tamanha beleza, mas minha paixão súbita me faz prosseguir para o próximo parágrafo.

Encontrei-a inesperadamente. Já a conhecia. Mas de um conhecer sem conhecer. As lendas contam que são assim as mulheres da sua vida, quando surgem misteriosas e enigmáticas. Veja bem, eu estava vivendo. E era quase uma lenda. De modo que sucumbi a essa mitologia, e me apaixonei de pronto. Quer dizer, na hora não percebi. Estava ocupado assimilando a imagem dela.

Nós dançamos. Dançamos por pouco tempo. Contudo, a música durou mais que uma ópera de Bethoveen. Foram, portanto, anos de convivência num ato só. Engraçado encurtar a vida para somente viver mais.

— Ei, eu te conheço. – gritei, tentando vencer o som.

— …

— Sim, te conheço sim.

— É, eu também te conheço. – ela disse, desconhecendo o nome alheio tanto quanto eu.

E nos conhecíamos de fato. Até sentimo-nos velhos juntos. Ora, somos novos, todavia, achar-se velho com alguém de longa data, desconhecido ou não, é sinônimo de estranha intimidade.

Findos vinte minutos, não a vi mais. Soube sequer seu nome. Expliquei esse lapso assim: tantas vezes a vi, e tão entretido fiquei, que jamais pude perguntar-lhe o nome; devo até ter gostado de não saber, apenas porque fiquei entusiasmado, petrificado, boquiaberto, abismado, mortificado, enterrado, e vivo. Fiquei como uma alma no purgatório, desejando voltar à peregrinação na Terra. Agora sabia até pelo que rezar.

E assim ocorreu essa noite nada monótona. E misteriosa. Achei um tesouro. Mas, não era eu um pirata. Então, não identifiquei a fortuna na minha frente. Dei as costas, e fui mesquinho em não querer roubar tudo para mim. Ah, seu idiota! Todos são criminosos.

— Irei voltar lá e roubar aquela mulher. – pensei. – Depois de roubá-la, não me entregarei às autoridades. Talvez seja ela quem me roube. – e concluí. – Naturalmente não vou denunciá-la. Pode me roubar à vontade.

No final da história, eu fiquei só, restando este pedaço sorrateiro de texto de cotovelo. Ainda que eu procure, incessantamente, nos mesmos lugares, talvez não encontre essa mesma pessoa. É o que chamam de acaso. E o que os escritores apelidaram de vida.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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