Três em um, o paraíso das loiras

Debruçado na janela do quarto andar, negando o que ocorria abaixo de mim, abstraído pela bagunça das nuvens no céu, ouvi um barulho do térreo. A porta de madeira de um dos blocos chocou-se contra a parede. Por ela, em seu limiar, passou alguém, cujo enigma alimentava minha dócil curiosidade. Antes que a porta retornasse à sua posição original, vi-lhe. Uma jovem loira de beleza singular. “Como nunca a vi antes?“, pensei com meus botões.

Enquanto decifrava sua origem, ela se distanciava. Levava consigo sua beleza e, comigo, deixava meus pensamentos a seu respeito.

Ainda na janela, agora descontente pelo desaparecimento da primeira loira, vem-me uma segunda. Eu sorri. Até acenei, muito de longe. Ela me encarou, cerrou a face e se fechou; não sem antes naturalmente dar um ajeitada em seus fios loiros.

Embasbacado por ter visto, em tão pouco tempo, duas loiras tão atípicas passarem pela minha janela, fui ainda surpreendido. Haja coração, amigo. Ouvi outro barulho de porta se abrindo e rapidamente fechando. Na hora, pensei, “impossível ser outra loira. Faço mesmo aposta comigo próprio, se preciso, que isso não irá acontecer.

Apliquei baixo valor à aposta (ora, apenas eu mesmo vigiava meus pensamentos), de modo que sofri uma pequena derrota — apareceu a terceira loira. Seu cheiro, levado pela brisa de outono, chegou aos meus pulmões. “Ela até cheira como loira!“, concluí investigativo e admirado.

Em menos de um minuto, fui brindado três vezes pelo acaso. Percebi-me mais extasiado pelo ocorrido que se tivesse avistado um fusca azul. Decididamente, olhei para os céus e mandei meus cumprimentos a Eros e Afrodite, por terem me colocado no lugar onde moro, o paraíso das loiras.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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