Tarde repulsiva

Tarde_Repulsiva

À medida que ela se distanciava, o sol iluminava placidamente seus fios de cabelo raivosos (por que ela jamais os ajeitava quando estava entristecida). Ele a observava cabisbaixo, distante alguns metros, ao passo que uma brisa amarga lhe trazia a doçura do perfume inconfundível.

Aquele não fora decididamente um bom almoço. Mesmo com a vista para o mar, o atendimento preferencial auxiliado por um gorjeta atípica ao garçom, a escolha do prato a critério dela; nada disso ofuscava o fato de que, mesmo que ela estivesse grávida, e ambos, todos os dias, como nasce e resplandece o sol seus raios luminosos como áureos filhos ardentes, desejassem e já amassem a criança em formação, protegendo-a de todas as atrocidades e vilezas de um mundo belo e ao mesmo tempo hostil, ele não concordasse com os termos do casamento.

E a dispersão magnética do matrimônio, com que se repeliam os distintos polos do argumento, fazia com que ela se afastasse pela orla no ritmo das ondas do mar, de costas para ele, cada vez mais. Todavia, estabelecia distanciamento falso. Tinha passos que hesitavam, confusos, como quem quer acalmar seu ritmo e, de súbito, olhar para uma porção da areia e verificar num pequeno espaço, surpreendida, uma sombra que dissesse as palavras que tanto ansiava; as frases as quais, pelos seus ouvidos, ainda não lhe penetraram a alma.

Porque a pele de ambos, conforme se afastavam e se aproximavam um do outro, queimava-se demasiado pela exposição aos colossais raios de sol, capazes de perfurar mesmo a escuridão do esconderijo de um útero que aconchegava uma joia que, ainda não aos olhos humanos exalando seu brilho, corria o risco de já se enferrujar.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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