Sábado de sol

Sabado de sol

Sábado. Dia de sol ensolarado. Fatídico dia de sábado de sol. Logo no portão do condomínio, com o porta-malas do carro aberto, o casal procurava acomodar no veículo tudo o que era necessário para curtir um dia de praia. Duas cadeiras de praia, uma para cada, guarda-sol de fácil armação, isopor com cerveja estupidamente gelada – item tipicamente inflacionado nas areias –, protetor solar, para ele, bronzeador solar fator 1, para ela, etc. Em meio à confusão natural dessas arrumações pré-praia, o homem parecia não gostar nada da prioridade dada ao guarda-sol frente ao isopor; aquela trolha ocupava quase todo o espaço do porta-malas e, não obstante, era sabido que aquilo, o isolante de ultravioletas em forma de tecido sintético, sequer seria usado pela sua parceira. Lembrou-se das inúmeras visitas anteriores à praia, em que observara sua excelentíssima debruçada ao lado da sombra projetada pelo guarda-sol.

— Então pra quê essa desgraça que só ocupa espaço, ora essa? – ele pensou.

Com tudo devidamente ajeitado, o clima entre os dois ajustou-se a temperatura do ar condicionado do carro: fresquinho, fresquinho. Talvez em épocas antecessoras ao advento dos aparelhos de resfriamento de ar, as idas à praia fossem muito mais reclamadas e discutidas entre homem e mulher. Ou não. Climatizados, a mulher acariciou o motorista na nuca graciosamente e sugeriu.

— Amor, coloque uma música de praia pra gente já ir entrando no clima.

O homem tirou, por um instante, os olhos da pista e os direcionou à mulher. Refletiu consigo mesmo. Se colocasse Surf Music, ela iria reclamar. Axé? Só se se estivessem na Bahia. Rock, por sua vez, nem se fala, é muito barulho. Optou por um Bob Marley. Racionalizou. Jamaica e praia têm tudo a ver um com o outro. Entretanto, bastaram dez segundos de Could Be Loved para que houvesse uma intervenção.

— Ai, amor, essa aí não. – a mulher disse, torcendo o nariz.

— Como assim essa não? – o homem espantou-se. – Você não pediu uma música de praia? Pois bem, Bob e praia são duas coisas praticamente inseparáveis.

— Eu sei, amorzinho! Mas é que essa em particular é muito… – e procurou as palavras. – muito reggae sabe?

Considerada a última frase da mulher, o rapaz (sim, eles eram um casal jovem) recusou-se a tentar entender o que era uma música muito reggae. Simplesmente desligou o som. A mulher não gostou. Como ela não gostara da música que tocava, permanecia, portanto, no mesmo estado de antes: desgostosa.

Uma vez na praia, ele estacionou o carro. O motorista estava alheio. A passageira emburrada. Alheios e emburrados, por conseguinte, os dois desceram do veículo e apanharam as coisas na parte de trás do mesmo. Um ao lado do outro, parecendo um casal, mas atritado por um motivo leviano qualquer, encaminharam-se rumo à multidão que ocupava a areia.

Dez minutos foram consumidos para o estabelecimento de toda a infraestrutura. Enquanto o homem trabalhava, a mulher observava. Guarda-sol fixado no solo, canga esticada próxima à sombra, uma cadeira vazia, a outra ocupada. Para eles, quase tudo certo. Prosseguiram com o ritual da passagem do protetor e bronzeador. Um fator de proteção para ela, trinta vezes mais para ele. Sem ainda trocar uma palavra, ambos se protegeram dos atualmente mortais raios ultravioleta. Latinha de cerveja na mão dele, canga florida sob ela. Agora sim, tudo certo. Estavam prontos para passar as próximas duas horas sem se falar, cada qual aproveitando sua própria praia.

Quinze minutos depois…

— Você não vai mais falar comigo? – ela quebrou a inércia de mudez. – Tudo por causa de uma musiquinha? – dito isso, ele ponderou e concluiu que, de fato, aquele era um motivo muito banal para sustentar uma aspereza entre os dois.

— Você tem razão, querida. Não vamos brigar por tolice. – e buscou fazer as pazes através de um oferenda. – Quer uma cerveja? Tá geladinha…

— Ai! Não acredito! – ela gritou, apontando para a direita. – Eu quero todas! Chama ele pra mim, amor. – emanou, esbaforida, imperatividade, referindo-se a um ambulante, desses que vendem de tudo aos montes nas praias.

Atencioso, o homem gesticulou ao vendedor, lá distante. Sem precisar gritar, nem sequer usar a voz, o comerciante móvel surgiu, arrebatado e em segundos, adjacente ao casal.

— Olha a canga, toalha, rede, bijuteria, água de coco, cerveja, churros, queijo assado, açaí, óculos “raibã”… – o ambulante exibia, sem respirar entre um item e outro, elegantemente seu portfólio.

— O que você quer, querida? – perguntou o homem à mulher.

— Não sei. Tem tanta coisa. Posso dar uma olhadinha nas cangas? – inqueriu a mulher.

— Claro. – disse o ambulante. – Qual cor a senhora vai querer? Tenho vermelha, azul, verde, limão, verde-limão… – falava compulsivamente, sustentando aquele mesmo ritmo do início da venda.

— Hum. – a mulher fitou algumas cangas, apanhando em suas mãos duas delas. – O que você acha, amor? – interrogou ao homem, mostrando-lhe, em cada mão, uma canga.

— A da direita é mais sua cara, querida. Você gosta de coisas floridas com verde, não gosta?

— Adoro! – e a mulher, supostamente agradecida, reconheceu o esforço do homem em ajudá-la diante da difícil decisão. – Como você me conhece bem, amor! Eu te amo! – disse as palavras amorosas com a tanga direita próxima ao seu corpo. Esticou seu braço esquerdo, que carregava a outra canga, no sentido do ambulante. – Acho que vou ficar com essa verde florida mesmo. – feito isso, o ambulante sorriu. O homem sorriu. A mulher, bem, a mulher, que estava prestes a sorrir, mudou de ideia. – Se bem que…

Os dois homens se entreolharam. Decepcionaram-se. Em tempo de crise econômica de escala mundial, era inexplicável como o Brasil se mantinha, financeiramente, em pernas firmes, tamanha era a dificuldade do mercado ambulante informal em vender uma singela canga de praia. Uma canga de praia! Singela…canga…de praia. Minutos puxaram o ponteiro do relógio para baixo. Permanecida a indecisão na compra, por obséquio, o ambulante se retirou.

Meia-hora depois, um hippie abordou o casal. Dessa vez, tratava-se de artesanato. A mulher olhou peça por peça. Modificou os lábios. Encarou o marido. Como antes, houve mais uns minutos sem sim e sem não, e o hippie se despediu.

Insatisfeitos por motivos distintos, o homem e a mulher deram seguimento a sua estadia na praia, que anunciava sinais de encerramento. O sol ficou tímido, talvez com vergonha do fato da canga não ter sido comprada. As nuvens, oportunistas como são diante da timidez solar, deram as caras. Tempo fechado no alto, tempo fechado embaixo, na areia. Hora de recolher as coisas e ir embora.

Ao pé do carro, batendo, com uma toalha, nas pernas para retirar a areia destas, o homem consternou-se. Em tom firme, preponderante, argumentou que era uma falta de respeito ocupar a atenção dos vendedores, fossem eles ambulantes ou hippies, e, em troca, não levar nada; sequer uma canga ou artesanato. A mulher, ao ouvir aquelas palavras, sentiu-se culpada. Não tinha a intenção de ser insolente.

Com o carro quase ligado, a mulher avistou um outro hippie. Posicionado há alguns metros de distância, ele encontrava-se sentado ao meio-fio, do outro lado do estacionamento, com as mãos juntas ao corpo, num movimento de confecção. Buscando se redimir, e com cara de cão arrependido, ela dirigiu-se ao homem.

— Amor, olha ali outro hippie. – e completou. – Prometo que vou comprar algo. É muito maldade mesmo só ficar olhando e não levar nada. – o homem, um pouco desconfiado, mostrou-se clemente ao discurso da mulher.

— Tá certo. Mas, dessa vez, sou eu que vou comprar algo pra você. Apenas pra garantir. – e disse sorrindo. – Considere um presente.

O homem atravessou o estacionamento. Conversou brevemente com o hippie e, com cara de enterro, retornou ao carro.

— E aí amor, o que você comprou pra mim? – perguntou a mulher ansiosa para, finalmente, ter algo comprado para si.

— Não comprei nada! – bramiu, em seguida encolhendo os ombros. – Esse filho da puta tava cortando as unhas!

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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