O parto

Estavam no campo, cinco horas distantes da cidade, e do posto médico mais próximo. Escurecia. E o vento quase noturno atravessava com força as árvores que rodeavam a fazenda. O lugar era delimitado por altos pinheiros, através dos quais alguns raios de sol ainda se anunciavam.

Uma rajada súbita de ar atingiu a cabana, que era central a zona de pinheiros. Embora seus moradores a chamassem de fazenda, aquela propriedade não passava de uma casa de madeira, com imponentes árvores em suas cercanias. A batida do vento na porta da cabana ofuscou, apenas momentaneamente, o grito desesperado de Dona Amélia.

Havia, dentro da cabana, e no canto da sala, um grande e rudimentar lampião. Ele alumiava o cômodo de baixo para cima. Estava depositado no chão. De repente, foi possível notar-se iluminado um par de pernas; elas andavam em passos rápidos, acompanhadas por uma respiração ofegante. As pernas eram de Gertrudes, popularmente conhecida como Tia Gê, ou a parteira.

Logo a figura da mulher desapareceu da sala. O lampião restou lá, solitário, cumprindo a nada nobre missão de iluminar os gritos oriundos do quarto. Neste, estavam quatro mulheres, postas em círculo. Circundavam a cama, à exceção de Dona Amélia, que encontrava-se deitada nela, com as pernas escancaradas e os joelhos dobrados.

— Ah, ah, ah! – Amélia comprimia seus dedos contra os de Tia Gê. – Está doendo muito! Faça parar a dor, Tia Gê! – repetia, enquanto seus lábios tremulavam e, para cessar seu tremelique, mordia-os.

— Se acalme, querida. – disse a parteira. E dirigiu-se a uma das outras mulheres. – Vá buscar mais pano lá fora. Também traga mais água. Vá! Rápido!

Tia Gê estava na cabana desde o meio da tarde. Fora chamada às pressas por um criado da fazenda, em sua casa que ficava logo após os pinheiros. Viera correndo. E permanecia em corrida, porém agora à favor da vida, contra a morte, contra o tempo.

Dona Amélia perdia muito sangue. E apesar de seus muitos anos como parteira, Tia Gê não sabia se todo aquele sangue era do bebê, ou da mãe. Uma poça vermelha formou-se ao lado cama. Tinha um aspecto escurecido, devido à fraca luminosidade do ambiente. No quarto, sobre uma mesa de madeira e à semelhança da sala, havia um lampião.

— Estão aqui os panos, tia Gê. – adentrou o quarto a ajudante a quem fora deliberado trazer os panos e a água.

— E a água? – perguntou a parteira.

— … – um silêncio profundo antecedeu a fala da mulher, que começou imediatamente a chorar. – esquec… – e Tia Gê tirou os olhos por um momento da gestante, e encarou a moça.

— Então vá buscar, querida. Não precisa chorar. Estamos todos muito nervosos aqui. Mas, prometo que dará tudo certo.

A moça limpou suas lágrimas com as costas da mão, e se retirou. Pouco tempo depois, trouxe em cada braço um balde transbordante de água.

A parteira pegou um pano, dobrou ele pela metade, enquanto afundava-o em um dos baldes. Em seguida, levantava o pano, e o torcia, em movimento contrário com as mãos. Depois punha o tecido úmido um palmo e meio abaixo do umbigo de Dona Amélia. Estancava e limpava o sangue, e então repetia o procedimento, retornando o pano ao balde.

À medida que perdia sangue, o corpo de Amélia intensificava as contrações. Ela por vezes fechava os olhos, prestes a desmaiar. Cada que vez que isso ocorria, todos os restantes no quarto se entreolhavam, exprimindo no rosto um temor pela morte; a vida, que ali deveria estar sendo gerada, demonstrava o quão próxima ela pode estar do fim; uma respiração, um batimento cardíaco, e já se está susceptível à morte.

— Amélia! – disse Tia Gê – Amélia, abra os olhos! – e deu um tapinha em sua face esquerda; a mulher acordou. – As contrações estão fortes, mas não se preocupe. O sangue já parou de escorrer. Porém, irei agora precisar da sua ajuda. Quero que segure a mão de uma das meninas e, no final das minhas contagens, faça força. O máximo que puder.

Apática e com uma avassaladora fraqueza, Dona Amélia no entanto fez-se forte. Pensou na criança e no amor que com ela nascia; na dádiva em ser mãe; em doar-se intensamente à educação de outro ser humano; como poderia moldá-la e amá-la conforme a mais sublime maternidade. Já não importava sua fraqueza. Trouxe forças, e prosseguiu de acordo com o que Tia Gê instruíra.

— Um, dois, três, força! Um, dois, três, força! – contava a parteira.

Passaram-se dez minutos. Finalmente, foi possível ver a pontinha da cabeça do bebê. Porém, à essa altura, o estado de Amélia piorara. Voltou a perder sangue, e três mulheres eram agora necessárias para auxiliar Tia Gê.

Outra vez Amélia quase desmaiou. Suas pálpebras rebaixadas foram iluminadas pela luz de tom amarelo, que tomava conta do quarto. As sapatilhas e as roupas brancas que Tia Gê vestia cobriam-se de sangue. Um dos pés da parteira estava sobre a poça ao lado da cama. Ela continuava a contar.

— Um, dois, três, força!

Saiu a cabeça da criança, ensanguentada e muito pequena. Tia Gê movia tecnicamente suas mãos, buscando trazer aquele ser humano indefeso para um mundo selvagem. Apareceu, então, um braço. E outro. Depois o tronco, tão miúdo quando o restante do corpo. As mulheres sorriram, espontaneamente satisfeitas com a cena. Tia Gê, contudo, manteve-se calada. Sabia que algo estava errado. A criança não chorava; sequer esboçava sinais respiratórios.

Quando tomou o bebê nos braços, ainda vinculado à Amélia por um longo cordão umbilical, a parteira fechou os olhos. Mordeu o lábio inferior, e fez uma prece mental. As mulheres removeram seus sorrisos. Notaram na atitude de Tia Gê a infelicidade da situação.

Todavia, com surpresa, segundos depois, ouviu-se um som quase inaudível, que logo aumentou.

— Buááá! Buááá! Buááá!

O rosto do bebê, antes de um roxo mortífero e sem circulação, tornou ao vermelho, trazendo luz à imagem que corria pelos olhos das mulheres. Ensaiaram se abraçar, em celebração ao advento da vida, do surgimento humano. No entanto, logo deram-se conta que, embora o bebê respirasse, sua mãe, Dona Amélia, já não o fazia.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.