O homem rotina

Creme Dental Rotina

Creme Dental Rotina

Estava ainda deitado, quando uma fresta de luz adentrou através da cortina esvoaçante, pela força da primeira brisa da manhã. Sem abrir os olhos, Humberto sabia que já era dia. Relutava, no entanto, a acordar prontamente. Desejava que resquícios dos sonhos da noite anterior ainda restassem em sua mente, que não se achava, ainda, completamente tomada pela consciência. Mas era segunda-feira, e o ruído dos automóveis nas ruas era como um sino que indica o princípio de uma cerimônia. Remexeu seu corpo na cama, mas sem indignação. Fazia aquele ritual há tanto tempo, que nem mais o incômodo de despertar pela manhã lhe era mais um inconveniente.

Levantou o tronco à meia altura. Encostou seus pés no chão, exatamente onde estava seu par de chinelos. Cuidadosamente, antes de dormir, deixava emparelhados seus calçados. Assim, quando acordasse, como ocorria agora, não precisaria gastar tempo ou maiores energias à sua procura. Calçou-se, enquanto levava a mão à boca, buscando aplacar o bocejo. Ergueu-se. Foi até o banheiro. O espelho acima da pia possuía uma rachadura central, o que fragmentava a imagem de Humberto, dando-lhe um aspecto ainda mais sonâmbulo. Abaixou um pouco a cabeça. E encontrou um ponto plano de reflexo onde podia ver sua imagem surrada com mais nitidez.

Apanhou a escova de dentes; e o creme dental — cuja marca comprada era a mesma, desde muitos anos. Em seu raciocínio do cotidiano, não fazia sentido trocar a preferência quanto ao creme dental. “São todos iguais mesmo”, pensava. Não calculava que na sociedade os sorrisos se aparentam todos, justamente pela inércia medíocre dessas pequenas decisões diárias. Gargarejou ao final do procedimento, e cuspiu, na pia branquíssima, uma solução de água com espuma. Lavou o rosto e conseguiu sentir-se mais limpo. Mais preparado para encarar o dia, como se os dias realmente precisassem ser encarados, e não intensamente vividos.

No regresso ao quarto, porém, decidiu-se ir à cozinha. Seria melhor opção. Sempre tinha essa atitude.

Na cozinha, abriu a geladeira. Nela apanhou duas bananas, um pão, um pote de margarina e uma caixa de leite desnatado. Levou tudo à mesa, que estava bem ao canto do lugar, encoberta por uma película estampada por flores amarelas. Espalhou os itens e os misturou. Primeiro em cima da mesa, depois em seu estômago. Satisfeito em assassinar o jejum, quis sorrir; mas era cedo demais para isso.

Olhou para o relógio pendurado na parede. Não estava atrasado. E seu patrão sempre chegava depois que ele no expediente, o que fazia de Humberto um ser de muita sorte. Assim ao menos ele ingenuamente racionalizava. Ligou a televisão. Passava o jornal matutino. Os apresentadores muito maquiados podiam muito bem viver em terras estrangeiras. Uma pesada maquiagem lhes camuflava as olheiras, e um sorriso grandioso e agradável eram opostos às caras amassadas dos espectadores daquele período do dia. Anunciavam solenemente, não importasse qual a gravidade do fato, as notícias que se repetiam o ano inteiro. Um crime de latrocínio na esquina de um bairro distante; um assalto a banco num bairro próximo; um especialista em nutrição dando dicas sobre a dieta dos campeões, seguida no entanto majoritariamente pelos fracassados; a previsão do tempo que acerta só quando chove; e assim por diante. No intervalo do telejornal, interveio uma propaganda de creme dental. A mesma que Humberto utilizava em seus 32 dentes. Lembrou-se, de súbito, dando um sobressalto logo após, que, se tomara café da manhã, deveria escovar seus dentes outra vez. E assim fê-lo.

Pôs sua roupa costumeira, abotoou sua camisa de cor similar às outras, apertou seu cinto, apanhou a carteira de couro desgastado. E saiu de casa.

Posto os pés na rua, caminhava ao lado de outras pessoas com indiferença. A essência de se andar em lugares públicos parece ser a apatia dos transeuntes. Todos num ritmo patético, imersos em fones de ouvido acoplados a seus celulares, ou tentando demonstrar pressa como se o mundo dependesse de sua presença inestimável, constituindo cada um sua rotina, da qual passariam a reclamar nos consultórios médicos. Humberto se misturou à população. Quando se deu por si, já estava na empresa onde trabalhava.

À entrada do prédio, passou por Júlia. Ela era secretária na empresa fazia anos, e representava uma figura constante na vida de Humberto.

— Você fez aquele café fresquinho, Julinha? Só há uma maneira de acordar completamente, para começarmos um dia de cão, não é? – ela sorriu, e retribuiu.

— Sim, Beto. Fresquinho como você e eu gostamos.

Humberto aquiesceu diante da resposta, como sempre fazia. E como também enamoram-se duas existências passivamente, dois anos depois Júlia fazia o café na casa de Humberto, pela manhã, antes de ambos irem, como pombos justapostos num fio elétrico, ao trabalho de cada dia. Fizeram planos e iriam comprar um carro. E viajar para a Europa, preferencialmente com destino a Paris, onde se pode saborear um estranho romantismo trazido por uma Torre. Para isso, contudo, era necessário que permanecessem em sua realidade para a qual, toda manhã, relutavam em acordar.

Humberto continuava a deixar seus chinelos emparelhados ao lado da cama. Júlia, engraçadamente, mantinha hábito semelhante. Davam-se um beijo de bom dia, e iam juntos para o banheiro. Na pia branquíssima, sobre ela, lá estava o tubo de creme dental de Humberto, e agora também de Júlia. O que estranha profundamente quanto a isso, porém, é que o comercial de creme dental, veiculado no intervalo do telejornal, em nada lembrava este casal.

Numa sociedade mecanizada, a única taquicardia sentida pelo indivíduo é, longe de ser a aventura da emoção, quando se tem um infarto do miocárdio. E assim estava dada a sentença de Humberto ou Júlia. Quem a deliberou foram eles mesmos, constituintes do corpo social ao qual pertenciam. No qual a todo custo gostariam de se destacar, como marionetes num espetáculo infantil.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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