O homem que não sabia seu nome

Veja acima seu número de série

Veja acima seu número de série

A fila se estendia por poucos metros, mas o suficiente para dizer-se dela que era longa. Encontrava-se à vez um homem de média estatura. Suas pernas vestiam calça negra de linho; seu peito uma camisa social de azul muito claro, com listras brancas na vertical quase apagadas; seus sapatos não estavam lustrados, nem sujos; sua barba havia sido feita no dia anterior, decididamente — exibia um grisalho de quem possui, pelo menos, três décadas de vida.  Nas mãos, nada trazia, ao passo que o objeto desejado estava numa prateleira de plástico, acima do balcão. Olhou atentamente para as várias caixas de cigarro. Sem titubear, apontou, para a atendente, a direção da marca fiel ao seu pulmão. Ela apanhou-lhe o maço. Colocou-o sobre o balcão, e ficou lhe encarando. O homem retirou a carteira do bolso. Pegou duas notas de cinco reais, e as estendeu à sua frente.

— O senhor já tem cadastro aqui? – disse-lhe a funcionária, que vestia uma blusa polo, formato baby look e com uma pequena logomarca do estabelecimento no canto esquerdo.

— Creio que não. – encarou-lhe o homem, com olhos estranhados. – É necessário o cadastro? Quero só um maço. – e a moça lhe sorriu como quem mostra os dentes cumprindo ordens.

— São normas daqui. Estamos registrando todos os clientes. Precisamos manter um controle.

— Um controle financeiro?

— Acho que sim.

— E para isso é preciso manter um cadastro integral dos clientes? – a atendente franziu o fronte, sem saber rebater com bons fundamentos a indagação que se lhe propusera. O homem, tendo notado isto, e desejoso de poupar a ambos maiores burocracias, fez-se conveniente. – Está bem. Faço o cadastro.

A mulher que lhe atendia riu brevemente, satisfeita em estar cumprindo zelosamente sua função. Não lhe importavam as ordens, apenas que fossem cumpridas à risca. Assim poderia ganhar um aumento após alguns meses, como a Zuleide conseguira semanas antes. Zuleide fora quem lhe recomendara ao cargo de atendente. E acrescentou-lhe que, se o trabalho fosse executado nos conformes, o chefe, que tinha olhos que tudo viam, certamente iria lhe recompensar, como acontecera com ela.

À fila acrescentavam-se novos clientes, dado aquele peculiar impasse em que, no que parecia na cabeça do homem fumante, ele era o único cliente do lugar sem cadastro. “Devem ser todos clientes prata da casa”, pensou. Logo atrás dele, uma outra senhora já abaixava sua cabeça em direção ao relógio. Havia um marcador de horas na parede, à frente dela. Mas se tivesse olhado para a parede, e não para seu pulso, talvez não causasse a pressão que pretendia no homem que não tinha cadastro.

Ele procurou agilizar-se.

— …pois então…

— Ah, sim. – e a atendente abriu uma tela com muitos campos de formulário a serem preenchidos, na tela de seu computador. – Qual o nome do senhor?

— Meu nome é… – e o homem sentiu uma espécie de esquecimento em sua mente. Não como um branco, como quando se decoram respostas, mas no teste elas se acham em falta, esmaecidas. Ele realmente parecia não saber seu nome. – Me desculpe, meu nome é… – e travou outra vez, atônito.

— O senhor está bem?

— Estou sim. Apenas foi um dia cheio no trabalho hoje. – e aquiesceu, envergonhadamente. Estava quase desistindo do cigarro.

— Olha, se o senhor realmente não lembra o seu nome, posso baixar aqui no sistema suas informações. Só preciso do seu número de registro civil.

— Ah, isso eu lembro. – e a atendente sentiu-se útil pela resposta. – É 838202049492919388459392900398282838489329928393-92.

— Hum. Apenas um minutinho. – e ela minimizou a tela em que estava, e redirecionou-se para outra. Nesta, escreveu a sequência de muitos dígitos que lhe fora recitada. – Final 92, não é?

— Isso mesmo. – respondeu, com convicção, o homem que não sabia seu nome. A mulher às suas costas, à esta altura, havia já largado sua cestinha de compras no chão. Impaciente, resolveu buscar outra lata de atum, ou um creme de leite, para passar o tempo.

— O senhor saberia estar me informando algum outro dado do senhor, que o senhor não tenha me passado ainda? Só com o número de registro civil não consigo descobrir como você se chama.

— Bom, eu sou casado, e tenho dois filhos. Um casal.

— Oh, meus parabéns! – congratulou um homem no final da fila, de onde ainda era possível escutar a conversa que se passava no balcão.

— Meus parabéns, realmente. – a atendente endossou o coro. – Sonho em ter um casal um dia. Estou com meu casório já marcado. – e corou as maçãs do rosto, antes esverdeadas e nada maduras. – Quem sabe sua mulher saiba seu nome, senhor. Já tentou ligar para ela?

— Estou sem bateria no celular.

— Não seja por isso, – gritou, em ritmo de aproximação, lá do fundo, o homem que exclamara os parabéns segundos antes. – pegue meu celular. Faço questão que o use. Ele tem televisão digital, navega na rede 3G, 4G…9G, tira fotos em alta resolução de vários momentos importantes da minha vida, como este, por exemplo. Oh, antes que você faça a ligação, diga X. – e esticou o braço com o aparelho na mão estendida, abraçando pelos ombros o homem que não sabia seu nome. – Pronto, agora ele é todo seu. Mas, cuidado, ele ainda está na garantia.

— Olha é muita bondade sua. Mas não sei se fica bem eu ligar para minha mulher, e perguntar a ela meu nome.

Neste instante, todos na fila se entreolharam. Parecia plausível não incomodar uma esposa por pergunta assim, tão trivial. Logo se estabeleceu uma falação aos pares e trios, entres os que se enfileiravam. Dissolvida a indignação entre si, afinal a situação era de gravidade importante, um bom samaritano, diferente daquele que ofertara o celular, ofereceu-se-lhe.

— O senhor não quer passar o cigarro no meu cadastro?

— Você se importaria? Não quero causar transtornos com a sua mulher, por exemplo, como não quero com a minha. – e não riu, embora quisesse. – Digo, se ela souber que você está comprando cigarros para estranhos, talvez não goste.

— Ah, não! Fique tranquilo. Eu também fumo. Direi que o maço foi para mim. – e a atendente apenas acompanhava, com o pescoço para lá e para cá, a efêmera conversa dos fumantes. – Oh! – e empurrou o maço de cigarros em direção à funcionária, como se disse, “Cobre em meu nome, por favor.”

— Tudo bem. Não são exatamente as normas da casa, – ela balbuciava. Não gostaria, de maneira absoluta, comprometer suas possibilidades de ascensão profissional no mercado. – mas farei uma exceção. A gente também é ser humano, não é? – e soltou um risinho pálido, com os olhinhos afundados no crânio. E volveu para o samaritano de pulmões poluídos. – Qual o nome do senhor?

— Meu nome é… – e travou, igualmente fizera aquele a quem ajudava. – É… – e todos na fila novamente tiveram um momento de surpresa. – Bom, eu já tenho cadastro aqui. Passe o cigarro pelo meu número: 838202049492919388459392900398282838489329928300-01.

Na saída no mercado, o homem que não sabia seu nome decidiu-se por fumar um cigarro. Aguardaria aquele que lhe ajudara, para agradecê-lo. Assim que o samaritano surgiu em sua vista, aproximou-se já com a carteira aberta em gesto de oferecimento.

— Aceito sim. – enfiou o dedo indicador no maço, e retirou um fino cigarro. Colocou-o à boca, e o homem que não sabia seu nome o acendeu.

— Que confusão, ali, não é mesmo?

— Sim.

— Eu não sabia que não sabia meu nome. – disse o homem.

— Nem eu que eu mesmo não sabia o meu. – secundou o samaritano.

— Bom, eu preciso ir. Quis apenas lhe agradecer.

— Claro, sempre às ordens. Aliás, você tem conta no “E aí” ?

— Tenho sim. Me passe seu número. – solicitou o homem que não sabia seu nome.

— 838202049492919388459392900398282838489329928300-01.

— Ótimo. Está anotado.

— Qualquer dia fumamos um cigarro e tomamos uma cerveja. – concluiu o samaritano, já tomando distância.

Os dois homens seguiram cada um para um lado; ambos, contudo, mantinham um implacável pensamento, que queimava como a brasa de seu cigarro: por que não sabiam seus nomes? Foram tão cordiais um ao outro, afinal.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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