O caminho

Ice_Road

Criaram esses caminhos perfeitos, nada pedregosos, em que todas as pedras foram removidas para os que andam no traçado retilíneo da humanidade. Nestes percursos, as curvas nunca são acentuadas de modo que ofereçam demasiado perigo ou angústia aos caminhantes. E o sol sempre nasce e se põe igualmente para todos (desde o início dos tempos, mas utilizam-no ao seu favor), para que como relógios de corda acordem e durmam no mesmo horário, tenham os mesmos empregos, as mesmas casas, os mesmos carros, e assistam às mesmas propagandas.

Não há necessidade de preocupações maiores a esses seres, para cuja maravilhosa ordem e progresso são estimados contribuintes; são representantes máximos da espécie, porque a espécie, afinal, deles depende para que se expanda e domine os vastíssimos continentes, distribuídos em planícies, planaltos e pradarias.

Nestes ditos prósperos caminhos, porém, o chão é tão liso, mas tão sem atrito, que as pessoas estão frequentemente nele escorregando. Resvalam aqui e acolá. E tornam a cair para as suas margens — no útero da sociedade surgiu a própria marginalização, filho por ela depois renegado e tido como bastardo. Depois, sempre há algum sábio que já escorregou antes, todavia com altivez de sola de sapato antiderrapante se levantou, a lhes aconselhar: “volte ao caminho. Ele é o único possível para a felicidade. É portanto o seu dever voltar ao caminho. Ser feliz é estar no caminho.” As pessoas, desse modo, retornam à rota, como gados ao toque do berrante se conduzem à margem do rio para beber água num regato poluído.

Em algum ponto, houve o esquecimento de que extraordinários seres, em pouquíssimo número se comparados aos que estão no passo da grande fileira humana, e ainda a surpreender os olhos com suas criações, detinham o talento de aceitar e adaptar-se ao constante escorregar; estavam sempre com os joelhos ralados, os ossos, com fraturas internas e expostas; excetuando-se os geômetras, que, naturalmente, no papel, traçavam suas linhas retas.

Seguindo-lo, o caminho é perfeito, assim sendo, tão sem atrito e de lisura única quanto é o número de ingênuos que acreditam atravessá-lo sem sofrimento ou cortes; insofríveis seres humanos que são! Ah, e os escritores de má índole (malditos sejam Voltaire da Bastilha, Brás Cubas da Epilepsia e Erasmo de Roterdã da Loucura), sátiros animalescos coitados, certamente infelizes de seu purgatório ao inferno jazido na própria terra, que tinham prazer em anotar cada pequenino deslize; e eu, outro infeliz por aqui perambulando com meus trapos fingidos e ajeitados, chamando este caminho acidentado de escorregadia existência.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa (24.10.14)

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