Na terra do ontem

Estavam ambos assentados, um em frente ao outro, encarando cardápios cujos intens, em algum momento quase esquecido, foram seus olhares recíprocos. O estofado das cadeiras, de couro raro, confortava-lhes muito, exceto pelo quanto sentiam-se aflitos. O tecido angustiava as sensações, como tivessem elas se tornado negras em sua textura.

Seus olhares fugiam, escorrendo pelas lacunas de lágrimas invisíveis. Esquivavam-se da vista daquele que estava em frente. As pupilas contraíam-se, depois destraíam-se. Algo neles, em seu olhar e naquele lugar, afugentava-lhes a conversa. Não conversavam. Brigavam silenciosamente.

Dez minutos depois, dado que o restaurante estava lotado, veio-lhes um garçom. Vestia negro e vermelho na gravata, como o túmulo dos relacionamentos enlaçados por uma rosa em sua lápide.

— O que o casal deseja?

Olharam-se, sem saber o que pedir. Não havia consentimento algum sobre o pedido. Sequer consentiam sobre sua reconciliação.

— Qual a proposta da casa para hoje? – ele se impôs.

— Temos estas opções senhor… – apontou o serviçal, enumerando com o indicador as possibilidades do pedido que, longe de saciar qualquer um dos presentes, faria estômagos encherem-se de conivência.

— Hum… – matutou o homem. – Me veja, então, este. – indicou.

Pediu, sem saber ao certo o que apontava. Talvez sinalizasse sua covardia, dizendo nada senão um pedido extraído de um cardápio. Era, a ele, naquele momento, preferível pedir um escandaloso prato a servir sua mulher de sorrisos e afagos.

Se comemoravam algo, tal não parecia. Suas pálpebras estavam pesadas. A garrafa de vinho que solicitaram, de uma safra tão remota quanto distantes estavam, exalava uma uva já amadurecida. Seria doce. Mas, a doçura já havia se destilado em apatia e indiferença. Vinícolas não seriam capazes de processar esse vinho de vida agora azeda. Grãos de uva, às vezes, são mais humanos que a embriaguez por eles trazida.

Em um desfecho, esse casal se desfez. O homem cumprimentou o garçom, educadamente. E partiu.

— Até a próxima, campeão. Agradeço o bom atendimento. – agradeceu, com uma polidez sincera para com o garçom, mas falsa para consigo mesmo.

Quando chegaram em casa, a atmosfera muda, e colérica, do restaurante fizera-se a mesma. Havia uma cama. Mas, nela, apenas uma pessoa se deitaria.

Entraram pela porta do quarto. Em meio à madrugada, a porta ressoou fortemente. Quando acertou a parede, um som estridente ecoou por todo o bloco do apartamento. Tão agudo era o som, ouviu-se ele por toda a vizinhança; porém, os vizinhos, ocupados em seus próprios infernos, nada notaram.

E ela disse:

— Se você sair por essa porta, jamais haverá volta. – seu indicador era incisivo, e atingia a alma.

Ele então lançou-lhe um olhar, e retrucou:

— Nem todas as saídas têm volta. Talvez eu esteja em uma delas.

Nunca mais se falaram. Quando se viam, fingiam não saber dizer. Se cegos, até em braile recusavam comunicação. Tratava-se de cenário machadiano, em que mulher e homem, antes conjuntos, jamais se falavam, exceto por encontros curtos de acaso inevitável. Jamais amaram-se pela segunda vez, justamente pela impossibilidade da repetição do acerto máximo.

Em seguida, como prossegue o tudo, vidas duplas seguiram-se individualmente. Fizeram-se, dessa contenda e harmonia, duas últimas aflições.

Incertas como agonizantes agonias, aquém das saudades reflexivas que maltratam no espelho, mudaram-se as imagens da mulher ao lado. Seus saltos altos, que percorriam as escadas em sons agudos, contundentes, anunciando sua beleza que descia degraus, foram-se. Suas alturas iriam percorrer corredores de outros mundos, para despreender homens de outras apatias, de universos altos em direção a Zeus.

As delicosas mãos que tocaram o rosto do homem, e as dele, não tão delicadas como as da mulher, compuseram uma época a ser congelada pelo instante que precede o futuro, querendo apenas firmar a ausência do tempo. Longe do destino, ou de qualquer restaurante cujo cardápio é eterno, sua lembrança fora firme, densa, e relutante em desaparecer. Todavia, mesmo o mais lucrativo dos restaurantes secou; afinal, num rio nunca se entra da mesma forma, duas ou três vezes; tudo muda, ou seca.

Houve discussões, cada uma em sua cabeça, por meses seguintes. Depois, cansados de suas próprias mentes, esqueceram-se da alegria. Esfriaram perante o sofrimento. Dias depois, para um ou outro, dolorosamente, mergulharam em águas mais aquecidas. Um se queimou, e retornou ao inverno constante. O outro, merecidamente, abrigou-se no calor prolífico dos braço seguintes.

Perante às estações, havia dificuldade em estar no verão; mas, o sol, incólume e impávido, estava lá, no alto, aguardando a próxima rodada. E a roda da vida rodou novamente.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa.

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