Na república parto forçado

Três firmes batidas na porta ressoaram por todo o quarto. Deitado na cama, com o lençol amarrotado em um canto do colchão, abri os olhos. Não conseguia me mexer. A ressaca consumia cada parte do meu corpo. E embora não desse conta deste fato, eu estava ainda vestido; com as vestes amassadas tanto quanto meu rosto; exceto pela camiseta, cujo paradeiro era um mistério de difícil solução. Antes que pudesse levantar o pescoço, ouvi uma voz impávida, troando como uma trovoada.

— Luizinho! – e ouviu-se uma batida pesada na porta, cujo trinco ameaçava ceder numa próxima batida. – Luizinho, você está acordado? Acorda, porra!

Bocejei, sentindo ainda a secura na boca. Desejei me virar, sentindo a maciez calmante do colchão sob meu corpo, e ignorar o grito que vinha de fora. Coragem é levantar-se da cama, mesmo sabendo que seria infinitamente melhor ficar ali, deitado.

— Luizinho! Acorda moleque! Sua vó está aqui!

— O quê?! – me ericei, apoiando-me nas mãos. Sentei-me, formando um ângulo de noventa graus em relação à cama, e dilatei minhas pupilas. “Como assim minha vó está aqui?!”, pensei. – Que avó?

— A sua!

— A minha?

— É!

Olhei ao redor, e assimilei a realidade decadente do meu quarto. Estava uma bagunça. Uma lata de cerveja pela metade dormira do meu lado, porém no chão. Na grande janela que dava para a rua, havia outras três latas empilhadas, uma sobre a outra, formando elas um triângulo metálico, como um castelo de cartas. Uma ponta de cigarro fora apagada na lata que estava no topo.

Nos cantos do quarto, minhas roupas se misturavam a outras que, definitivamente, não eram minhas. Outra vez, a noite anterior havia sido um furacão de última intensidade na República Parto Forçado.

— Minha avó mora há três horas de distância daqui! – berrei, já me levantando, para a pessoa do lado de fora.

— Sei disso, Luizinho, seu burro! É essa mesma! Ela está ali, no portão, perguntando por você!

Não era possível. Como eu poderia ter me esquecido? Vovó Mariquinha, através de minha honrada mãe, avisara sobre sua visita fazia meses. Haveria, naquele fim de semana, uma convenção nacional do clube de avós. Fora combinada sua estadia. Ela seria na Parto Forçado; eu até já alertara todos os moradores sobre tal visita, que concordaram em fazer uma limpeza pente fino para a ocasião. Ora essa, dar uma festa de arromba não é lá o melhor sinônimo de limpeza para se receber a mãe da sua mãe.

— Droga, esqueci! – e comecei a correr pelo quarto, às pressas. Juntei as latas de cerveja, então as pontas de cigarro; à medida que juntava, enchia uma sacola de supermercado, depois escondida numa remota gaveta do guarda-roupas. – Segure ela por um instante lá embaixo, pelo amor de Deus!

— E de que adianta Luizinho, a casa está um caos!

— Não importa, segure ela o máximo que puder.

— Está bem. – disse a voz já se distanciando. – Você tem cinco minutos.

Fiz uma trouxa com o lençol de aspecto nojento, e coloquei-o na mesma gaveta onde guardara a sacola com as pontas de cigarro e latas de cerveja. Chutei o restante das peças que sobraram no chão para debaixo da cama. Assim que o fiz, entretanto, um pacote de preservativo aberto surgiu no piso; como um hóspede rebelde, que só revela sua presença no último momento da desocupação do imóvel.

Naquele instante, visualizei vivamente o piripaque que a velha teria, quando se deparasse com aquele pequeno quadrado de plástico rasgado. “Oh, uma camisinha! Não acredito que meu neto está fazendo…fazendo esses sacrilégios carnais, que apenas fazem sujar o corpo e a alma! Oh, mundo perdido! Oh, juventude promíscua!”, ela talvez pensasse.

Nem cinco minutos se passaram. E deixei o quarto, correndo. O restante da casa estava tanto quanto ou pior que meu quarto. Senti um orgulho depravado, que crescia dentro de mim juntamente às lembranças vagas da noite anterior. O pessoal da Parto Forçado estava de parabéns. A festa fora um sucesso. Sabíamos disso porque placas de trânsito apareceram de súbito na sala, sinalizando que no sofá não era permitido pisar na grama; mulheres desconhecidas dissimularam sua entrada, como se não soubéssemos que elas não eram convidadas; e dois estranhos dormiam nas boias da piscina, no quintal.

Antes de ir até o portão, no entanto, passei no banheiro. Abri a torneira, e enfiei a cabeça na água corrente. A ressaca diminuiu temporariamente, pela água gelada que corria em direção ao ralo. Respirei fundo e, evitando a imagem refletida no espelho, sequei-me em uma blusa feminina pendurada onde deveria haver uma toalha de rosto. Na blusa, ainda havia o doce perfume de uma fragrância conhecida. “Pati”, concluí.

Já no portão, sem notar estar sem camisa, abri um sorriso para vovó Mariquinha.

— Oi vó! – ela me encarou de baixo para cima. Quando chegou à altura dos meus olhos, permanecia inexpressiva.

— Oi, meu neto.

— É…vamos entrar, vó. – eu disse, fazendo gestos de anfitrião desajeitado.

— Vamos. – ela respondeu ainda sem expressão em seu rosto rugoso.

À medida que passávamos pelos cômodos da casa, inicialmente a sala, depois a cozinha, então contornando o quintal, em seguida alcançando o corredor, no qual iniciava a escada para o andar de cima, vovó Mariquinha apenas analisava. Ela caminhava na minha retaguarda. Sentia na espinha as consequências do meu esquecimento sobre sua visita. Conseguia ler, palavra por palavra, o relatório que seria passado à minha mãe. Certamente, minha estadia na República Parto Forçado estava prestes a ter seu cordão umbilical rompido.

— Muita expectativa para convenção do Clube de Avós, vó? – perguntei, tentando subtrair sua atenção.

— Não.

— …- engoli minha saliva quase inexistente.

Ela permaneceu em silêncio. Contudo, terminada a subida da escada, já ao pé da porta de um dos quartos do andar superior, vovó Mariquinha se pronunciou.

— Sua mãe não me disse nada sobre você morar em uma república mista. – “Mas que termos eram esses que ela conhecia tão bem. República mista?!”

— Como assim, vó? – então, ela apontou para o lado. Avistei Pati, semi-nua. Trajava apenas suas saias e seu sutiã de cor vermelha muito viva. Perturbada, parecia procurar algo.

— Oi Luizinho! – disse Pati. – Você, por acaso, – e soltou um sorriso, com a pontinha do pé apoiada sobre o piso, girando de um lado para o outro. – viu minha blusa?

Arregalei os olhos. Diabos, eu estava com a vó Mariquinha logo à frente, imponente como um inquisitor prestes a queimar o herege julgado na fogueira. Todavia, a ocasião fez o ladrão, e não pude deixar de ajudar Pati.

— Já tentou o banheiro lá de baixo? – disse, constrangido.

— Ai, Luizinho, você é um amor. – e me deu um beijo no rosto. – E quem é está adorável senhora?

— Ah, foi mal Pati. É minha avó, Mariquinha. Ela está aqui para…

— Oh, que linda sua avó, Luizinho. – e beijou o rosto da velha, grudando-lhe os lábios na pele envelhecida, como se fosse ela sua própria avó.

Não sabia onde enfiar a fuça. Vó Mariquinha voltou-se para mim, fitando-me. E Pati desceu as escadas, rumo ao banheiro.

— Ela é uma amiga minha de longa-data, vó. – e arreganhei um sorriso amarelado, cabisbaixo, estranho, estragado. – ela sustentou-se novamente sem expressão.

Ao alcançarmos o quarto, olhei ao redor, investigativo. Procurava pistas obscuras de um eventual crime cometido por mim mesmo. Veio-me à mente a cena possível do preservativo. Aquilo me conduziria da cela para a solitária. Naquele momento, preso eu já estava. Fechei a porta.

— Meu neto. – ela disse. E em seguida fez uma pausa. Apreensivo, arregalei os olhos em sua direção. “Lá vem bomba”, pensei. – Para cada noite escura, há um dia mais brilhante.

— Vó?

— Isso mesmo que eu disse.

— Não entendo.

— Quem disse isso foi Tupac, meu neto. Você deveria saber disso melhor que eu. Assim como sei que você está com uma ressaca infernal. Estou errada?

— Não. Mas, você conhece Tupac? – era só o que faltava, uma avó fã de Tupac!

— E como não conheceria. Vi essa mesma frase em uma postagem sua, no facebook.

— Facebook?

— Sim, facebook. Tenho você como amigo faz meses. Direto vejo suas fotos de noitada; uma pior que a outra. – e gargalhou. – Talvez você não se lembre de ter muito bêbado algum dia me adicionado. – e a velha abriu um sorriso maquiavélico. Eu, embasbacado, não sabia onde enfiar a cara já murcha pela ressaca. – E, se você fosse mais esperto, – ela neste momento passou a percorrer todo o quarto. Seu olhar, no entanto, não era investigativo, mas curioso; como se a cada olhadela, em cada canto, previsse as peripécias inenarráveis realizadas naquele cômodo. – saberia que a convenção nacional do clube de avós foi cancelada; era só olhar o evento no face; eu mesma lhe convidei, seu bobo.

— O quê?! Mas…se foi cancelada…

— O que faço aqui? Vim pra curtir! – “O quê?!”, exclamei mentalmente, já buscando minha boca que caíra no chão. – Mas não se preocupe, meu neto. Não vou contar nada sobre o que vi à sua mãe. Da próxima vez, no entanto, espero que você me avise com bastante antecedência sobre suas festinhas particulares, de modo que não chegue com um dia de atraso na próxima! Afinal, convenção de avós tem todo ano; e eu adoro lembrar meus tempos de universitária.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

One Response to Na república parto forçado

  1. Werlang disse:

    Haha, mto bom. É uma pena que se fosse uma das minhas avós, o comportamento dela seria exatamente aquele esperado pelo Luizinho, e não o exibido por sua vó. heheheh

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