Eu não existo

Tree

Assim como está árvore, que está à minha frente, não faria diferença alguma se um raio caísse sobre ela, ou sobre minha cabeça. Como seria indiferente se, no século XVI, uma câimbra súbita tivesse acometido os braços de Camões, em meio ao oceano, e Os Lusíadas não fosse salvo, deixando a humanidade órfã de seus versos. Ou se César não oferecesse sua filha a Pompeu, e o primeiro triunvirato romano não tivesse sido registrado nos livros da História. Porque nada disso realmente importa; tudo finda; tudo morre. Um personagem atropelado na esquina, ou na obra de Dostoiévski, é igualmente doloroso e absurdo, indistinta ficção ou realidade. Um homem, independente do quanto tenha sido importante aos olhos de outros, não existe, por isso, mais que outro. Assim sendo, eu não valho nada; nem mais ou menos que esta árvore à minha frente.

Todavia, basta que uma brisa leve e úmida de vento me rebata a face, e sinto-me vivo. Não preciso ser Camões, e versificar em métricas banhadas a ouro; ou ser graduado no militarismo e estratégia de Pompeu e César para que conquiste impérios, bastando-me as derrotas e vitórias desertificadas na arena das paixões; e ao grito de um indivíduo atropelado, na esquina, saiba que posso com meus braços, incansáveis tanto quanto possam minhas limitações físicas e psicológicas, erguer as estruturas que o soterram, para que como eu estou vivo, ele ainda o esteja. Assim, diferentemente da árvore que ainda está à minha frente, crucificada ao terreno, sei que ainda posso tombar por um raio sobre minha cabeça; sou ciente que existir ainda não possui significado em sua essência: exceto que acabei de propriamente criá-la!

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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