Em terra de surdo, quem tem dois olhos é curioso

Meus cotovelos apoiavam-se no beiral da janela do quarto. No quarto andar, e na altura da mesma janela onde me debruçava, meus olhos ardiam em curiosidade. Observavam atentamente à conversação na portaria. Os ouvidos, no entanto, eram-me ajudantes desleixados, ao passo que as vozes do térreo perdiam-se no meio do caminho. Que importava minha surdez, pensei; os conversadores pareciam divertir-se tanto, que pouco me incomodava sobre o que falavam.

Eram um homem – o porteiro do condomínio –, uma mulher – a moradora –, e uma cadela de estimação desta – apenas uma cadela. Abro aqui uma aspa justificadora. Eu sabia, à época, e ainda o sei, que bisbilhotar pela janela não é atitude das mais educadas. Mas, convém-se que de bisbilhoteiro todo mundo tem um pouco, e meus cotovelos precisavam naquela hora descansar.

Dos três personagens, dois humanos mexiam seus lábios. A cadela gargalhava, sem som, demonstrando apenas um sorriso de dentes bem tratados. A mulher latia. O porteiro, retrucava. Entre latidos e retruques, a cadela se entretinha, deitada ao pé de sua dona.

Acredito que gastei ali cinco minutos, hora em que me ausentei. Fui até a cozinha, intrigado pela naturalidade da cena que vira. Na pia, acima dela, havia uma garrafa térmica, cheia de café. Servi-me de uma xícara. Antes de dar o primeiro gole, contudo, resolvi voltar à janela. Preferi saborear o café no meu querido beiral, onde deleitavam-se em sua conversa meus três desconhecidos.

De novo no quarto, na posição em que estivera antes, bebi um pouco de café. Notei outra gargalhada, dessa vez do porteiro. Ora essa, mas que prosa invejável – até a cadela desfrutava; do lado de fora do condomínio, as pessoas andavam na calçada apressadas, caladas, tentando esticar o tempo; todavia, ali, na portaria, o tempo era curto; nascia e morria no extremo dos risos.

Eis que, ao olhar a borra no fundo da xícara, aborreci-me. Eu queria gargalhar também. Resolvi encerrar meu texto, e descer as escadas. Antes uma crônica pela metade a não descobrir sobre o que conversavam.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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