Diário lúcido de uma alma embriagada

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Sento-me aqui para escrever o relato mais sincero possível. Irei esclarecer todas as partes ocultas pela neblina da negligência. E trago-me como personagem fictício, senão humano. Comecemos, desse modo, pelos pudores vistos em muitos, e que aqui não se encontra. A disponibilidade em se revelar é virtude extraordinária. Então pensemos que estou sempre a revelar o que o mudo não diria; não por incapacidade da fala, mas porque sua alma receia o eco de seus sentimentos.

Meu grandioso Machado de Assis me assiste totalmente neste processo infindável de escrita. Ele e os bêbados que encontrei no meio do caminho. Afinal, ter apenas a lucidez como guia do que se escreve é um equívoco irrevogável.

Decidi-me por, tendo acordado num domingo de sol, buscar cervejas que matariam o tédio cotidiano. Não obstante os marasmos pertencerem a vida do homem, ainda inventaram um dia como o domingo. As convenções, então, se mostram como verdadeiros delírios humanos que buscam a regularidade. Ah, a constância que jamais encontrei em meu espírito se constitui nestas leis, as quais desejo burlá-las desmedidamente.

Lá no mercado, não muito distante da minha casa, cumprimentei aquele que estava no caixa. Havíamos, ao longo de anos de hábito, desenvolvido uma relação cordial; não como entre cliente e servidor; mas como quem se agrada além do aspecto comercial. Fui até o freezer, no fundo do estabelecimento. Interessante é, agora, ressaltar-se a métrica como que se avaliam as cervejas, quanto a sua temperatura. Peguei duas garrafas, que ao contrário de minha vontade, estavam não geladas. Ora essa, matei a charada em um instante. Apanhei uma latinha, em temperatura que assustaria até a Kelvin, e sabia que quando ela fosse finda, haver-se-ia das garrafas estarem geladas.

Paguei a conta, não sem antes comentar sobre o artigo de motocicletas que lia meu amigo atendente. Sem surpresa, seu gosto por veículos de duas rodas era compartilhado por grande parte da população mundial. Fato que me fez incluir certo outro amigo meu na conversa. Ele tinha uma motocicleta também, e tinha nos olhos o mesmo prazer em ler textos sobre o assunto.

Já em casa, na ocasião da visita de meus pais, fiz questão em não esconder o que trazia em mãos; não ocultei nem mesmo meus sentimentos mais ásperos; porque, afinal, junto com a denúncia do comportamento deve vir a decência da honestidade. Ser honesto não significa ser politicamente correto. Corro dessa corretude como diabo da cruz. A sinceridade mais máxima é saber que a mente humana é quebrada, e ainda assim é capaz de reluzir-se em arte. Meus pais, naturalmente, não são muito afetos de tal doutrina de vida; julgo que isso tem relação com o fato de, propriamente, serem eles pais; há essa harmonia necessária em seu julgamento. Isso, no entanto, acredito, é um suplício mais deles que meu.

Lembro-me de, tanto neste dia como nos outros, acordar com o seguinte pensamento: “Você acorda todas as manhãs para que morra à noite. Morre-se todos os dias. Assim sendo, trate de morrer da maneira mais intensa possível, em cada índice do calendário.” Foi assim que enganei as filosofias do homem, e me fiz um poeta saltitante e maldito.

Tenho em cada frase uma embriaguez quase necessária, e já de antemão sei que irei fazer o que posso disso me arrepender. Há essas outras ciências que insistem em dizer o certo. Como sequer o certo pude definir, acho que posso realizar tudo; até este texto.

Prostitutas, jogos, adultério, cassinos, drogas, ambições superficiais — pergunto-me, é este o homem? Pergunta que renderia aos antropólogos suas teses pomposas de doutorado. Resposta que culmina, para mim, em fragmentação dos desejos. O pai de família que, alegando ter uma reunião no escritório, altas horas da noite, é aquele que desfere um beijo no rosto da esposa, para que possa se excitar com uma concubina no colo. Os que ocupam as mesas de jogo são os mesmos a repudiarem em seus filhos os excessos da próxima rodada.

Quando meus entes queridos falecerem, ou o amigo do mercadinho, onde compro a cerveja, já lá não estiver, restarei-me comigo mesmo. Um livro de Fernando Pessoa e algo de álcool irão ser meus companheiros. Meu pensamento não será mais importante por isso, apenas terá mais amargura e peso. Consciência que se estufa pela vida, e se contorce conforme o sofrimento que chega a todos; a diferença é que eu chamo isso dança da existência, outros de fracasso.

Ainda assim, se eu estiver Casmurro como um Dom, ou acordar certo dia com as asas de Franz Kafka, direi tão só ter sido e isso registrado nestas linhas. O abismo sorri à medida que caminho em suas beiradas. Arriscando-me, desse modo, posso até amar intensamente outra pessoa. Agora sim entendo o sentido de “mulher de uma vida”. Sentir frio na barriga porque se pode despencar não é nada. Corajoso é ancorar-se em outro coração, sabendo que o seu ainda mantém seus batimentos.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

2 Responses to Diário lúcido de uma alma embriagada

  1. Jeferson Rocha disse:

    Que texto maravilhoso!
    Sua desenvoltura ao desferir as palavras em linhas textuais são elegantes.

  2. Jeferson Rocha disse:

    É elegante **

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