Dia de mestre

Professor_Girafales

Era próximo a uma da tarde. As aulas do turno da manhã terminaram. E os alunos, juntamente aos seus mestres, haviam já lotado e principiavam a esvaziar o agradável restaurante Beira-Mar, localizado muitíssimo próximo à Universidade. Numa mesa, deverás ao canto do estabelecimento, esquecia-se, isolada pela idade e pelo mundo, uma senhorinha que, em seu tempo, dela descrever-se-ia ser bela e sedutora dos pés aos fios de cabelo.

Sendo dia dos professores, houve, por obséquio do Beira-Mar, substancial desconto aos mestres, que comemoraram com gritos destacados a lembrança que se lhes fizera, pela fidelidade ao estabelecimento, e sobretudo pela importante ocupação que cumpriam à educação da sociedade. Um dos mestres apanhou a mão de uma aluna, e começaram a dançar. Arrastavam as quatro pernas num ritmo descompassado. Muito arrítmico a qualquer música que fosse. Isso pareceu causar certa revolta na senhora, que continuava em seu canto, como se ali fosse um lugar para ela cativo.

A senhorinha sorriu, mas muito brevemente e tão só de escárnio, ao assistir à celebração dançante dos discentes e docentes. Atacaram-lhe a memória seus tempos passados, em que era professora da única, todavia orgulhosa escola de dança da cidade; como ela era boa não apenas em dançar levemente, fluida como cisne em uma lagoa escondida em bosques frescos de montanhas verdejantes, mas também em ensinar; era mestre antes que viessem as teorias de pedagogia europeias sobre como conduzir determinado aprendizado.

Entristeceu-se. Franziu a testa, e a secou com um guardanapo amassado. Seus lábios, com batom vermelho cor de sangue, logo denunciaram estarem borrados; coisa que ocorre em geral aos que moram solitários, e não têm companhia para lhes avisar sobre as pequenas arrumações da aparência. Uma pequenina lágrima, do olho esquerdo, escorregou pela face enrugada. Demorou que chegasse à boca, não sendo sua pele mais tenra como aos dezoito anos. E até isso lhe aborreceu. Porque mesmo magoar-se fazia com que demorasse a sentir o salgado em sua língua.

No outro lado, ainda no restaurante Beira-Mar, um jovem, que poderia possuir muito bem a idade para ser um estudante, embora não agisse como um, observava discreto, mas vastamente a toda a cena. Carregava um bloco de notas em sua mão, e o prato de porcelana, com poucos restos de comida, achava-se já afastado de si. Algo de cerveja ainda restava em sua garrafa long neck; era sua segunda garrafa. Pretendia tomar uma terceira, como lhe parecia ser um hábito acompanhar suas refeições com álcool em mediana quantia. Anotava pequenos versos no bloco, e mesmo que olhasse para as joviais alunas e pretensos professores em fileira, chamava-lhe profundamente a atenção a figura da senhora do outro lado. Instigava-lhe o fato dela mexer os pezinhos. Mas isso só se via quando o vento entrava pela porta, e levantava ligeiramente o pano da mesa, denunciando sua angústia corporal latejante.

A senhorinha enxugou uma segunda lágrima, para que não houvesse outra terceira. E um último professor pagou sua conta, com desconto oportuno, seguido de uma aluna, que não se sabe ao certo que relação mantinha com o professor — diz-se aqui que cada um era responsável por sua comemoração e membros em dia de festa, sendo sabido que um aluno em muito tem a superar seu mestre, se bem ensinado lhe foi pela arte do educar. Assim que esvaziou-se o restaurante, sobrando apenas o jovem e a senhora, ela levantou-se, vagarosa. Pagou sua conta, dizendo algo muito baixo à caixa, como se a conhecesse há anos. E foi-se.

O jovem ficou pensativo. Aprofundou seus olhos no que escrevia. Algo em seu crânio, em seus pensamentos não lhe fazia coerência com a interpretação do que vira no Beira-Mar. Largou seu bloco de notas, sem anotar ponto final. Apressado, bebeu seu gole de cerveja restante. Pagou sua conta, apressado. Verdadeiramente, apenas deixou uma nota de vinte reais no balcão e saiu correndo.

Ao pisar na rua, olhou para os dois lados. Como a senhorinha pudera ter sumido, mesmo que andasse tão vagarosa era uma incógnita. Perguntou a dois homens, sentados num banco velho de uma praça próxima se a haviam visto.

— A senhorinha Dinda, você deve se referir? – descreviam-na com as mãos. – Baixinha assim?

— Isso! Esta mesma!

— Muito bem! – um deles esticou o braço, para a direita. – Ela sempre toma café depois do almoço na antiga mercearia de seu falecido marido. É logo ali, dobrando a esquina, jovem.

— Obrigado. Muito obrigado… – disse-lhes, já dobrando a esquina.

Ofegante, assim que chegou à mercearia, cessou seu passo. Apoiou suas mãos nos joelhos, gesto que parecia muito mais apropriado à senhorinha que a ele. Ela olhou-lhe, calmamente admirada e sorriu.

— Você está bem, meu jovem? – ele retribuiu a pergunta gentil com um riso quase cansado. Ela, por sua vez, largou sua xícara de café, e limpou-lhe, mesmo que não o conhecesse, amavelmente a testa com um guardanapo.

— Estou sim. Você…a senhora, quero dizer, estava no restaurante onde eu estava, não é mesmo?

— Sim, eu lhe reconheço, meu jovem.

— Lembra de mim?

— Meu jovem, posso parecer velha, mas desde meus tempos de professora, que não esqueço um nome, um rosto. – e o jovem se eriçou. Já com seu fôlego recuperado.  Observei que você escrevia. Sobre o que era?

— Um correio elegante para você. – ele disse, em brincadeira. – Gostaria de saber se você me concederia uma dança. – ela quase esbarrou na xícara de café que deixara no balcão.

— Ora, meu jovem. Quanta gentileza. É muito agrado da sua parte. Mas não tenho mais encantos ou jeitos para isso.

— Mas você dançaria comigo?

— Se eu dançaria?

E o jovem foi logo lhe puxando a mão, como se a pergunta que fizera à senhorinha Dinda tivesse sido retórica. Trouxe-lhe para a rua, para muitas pessoas um corredor solitário; todavia, para eles, um pleno salão de festas contra o impávido e colossal tempo, onde juiz algum poderia erguer seu martelo e outorgar: “aqui não se pode bailar, porque a música só se toca para alguns!“. Ao passo que loucos uns os julgavam, ao pé do ouvido o jovem se aproximou da senhorinha, apegado à sua mão esquerda.

— Há apenas um detalhe, – e já muitos do público tentavam entender o que ali se passava. Alguns compreendiam, e torciam narizes; outros, aplaudiam com certo receio. – eu não sei dançar.

— Não se preocupe, meu anjo. Eu lhe ensino. – sussurrou a senhorinha no canto do ouvido do jovem, enquanto arrastavam seus pés no meio da rua por entre as folhas de uma primavera de flores novas.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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