Desertores

Estive sentado à mesa da sociedade. Achavam-se ali muitos convivas sorridentes; outros ocultavam uma dolorosa angústia, ainda que igualmente ilustrassem os dentes. Enquanto se servia o banquete, alimentando, não democraticamente, poucas bocas em detrimento de muitas, notei a fria desproporção da fome. Os que enchiam a barriga, em particular em festividades falsas como a que se celebrava, contavam as piadas. Em seu favor, estabeleciam a graça na sua dádiva, jamais na de outrem.

O garçom se aproximou da mesa, em dado instante, e não sorriu com a sátira que lhe fizeram.

— Sente-se conosco. – um dos convidados dizia, tendo-se levantado e empunhando uma taça repleta de vinho negro na mão. – Venha, caridosamente entramos em acordo. Resolvemos, pela aparente impressão que temos do mundo, que abrir uma vaga nesta mesa, para uma pessoa da sua classe, irá ajudar a sentir-nos benevolentes. Deixe a bandeja de lado. Sirva-se, meu caro. – e riram por dentro, como são assim efetivados os sarcasmos dos quais apenas o locutor extrai graça.

O assento propositadamente deixado vago ficava ao meu lado. Olhei-o. E um vazio avassalador estremeceu meu espírito. Afligia-me estar naquela mesa. Os ossos tremiam ao tilintar das taças. E um sentimento profundo de deslocamento aturdia meu crânio. Educadamente, como assim dissimulam certas esmeradas e civilizadas pessoas, pedi licença. Retirei-me. Ora, minha atitude só vinha a consolidar a intenção original dos demais. Com a minha ausência, fizeram-se livres agora duas cadeiras. Isso, pelas minhas contas, duplicaria a possibilidade daquela adúltera compaixão e, por algumas horas, o mundo fingiria ser um lugar mais humano.

Assim que me fiz ausente à mesa, fui à cozinha. Lá encontrei-me com o garçom, cuja pessoa momentos antes havia sido convocada à ceia da fortuna.

Sem trocarmos uma palavra sonora, fui à adega nos fundos da casa e apanhei uma garrafa de vinho. Boa safra; parecia bastante antiga. Quando retornei, fiz questão que ele a abrisse. O estalido da rolha ecoou da cozinha, pelos corredores, até a sala de jantar onde se celebrava. Dispensando taças e outros requintes de tradição refutável, bebemos diretamente no bico; deixamos que escorresse pelos cantos da boca uma seiva rubra, muito vermelha, afinal sabíamos não sermos portadores de sangue azul.

Assim nos embriagamos, em comemoração a não estarmos na seleta mesa distante alguns metros ao lado.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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