Débeis mentais no shopping Indiferença

Na praça de alimentação, localizada no terceiro piso do shopping Indiferença, Eduardo costumava perambular de um canto ao outro. Sem objetivo, apenas babava ligeiramente pelo canto da boca. Quando as gotículas de saliva aglomeravam-se em excesso, esporadicamente algum funcionário do shopping fazia-lhe a gentileza de limpá-las. Sua idade mental, frágil e deficiente, era inferior à das pessoas que ali realizavam suas refeições diárias. Porém, especialmente para os empregados, ele era um agradável conhecido inserido em suas rotinas.

Em uma manhã agitada de quinta-feira, às onze horas, Eduardo surgiu pela escada que dava acesso ao pavimento da praça de alimentação. Era paralela à escada rolante. Porém, devido às suas limitações, Eduardo optava sempre pela lenta subida pelas escadas convencionais.

Andava de um lado para o outro. Suas roupas pareciam ser as mesmas do dia anterior, ainda que não conservasse nenhum cheiro ruim. Pelo contrário. Exalava cheiro de lavanda, extraída de uma colônia com a qual lhe presenteara a proprietária da perfumaria, situada no andar abaixo. Contorcia os lábios para as pessoas, sorrindo. Para quem não o conhecida, havia um espanto inicial. Normalmente, contudo, tal espanto logo se refutava pela comoção tênue, ou simplesmente pela dó hipócrita, dos desconhecidos.

Devido ao horário, achavam-se todos na praça muito atarefados. Os clientes ocupavam-se com seus pratos quentes e conversas frívolas de almoço, ou, então, fixavam seus olhos na placa eletrônica de dígitos vermelhos, acompanhando a sucessão das senhas que eram chamadas. Os funcionários, seja da limpeza ou os que serviam nos restaurantes, também atribulavam-se. Não lhes corria suor na face, apenas em razão do forte ar condicionado do estabelecimento.

No compasso dessas ocupações, Eduardo arrastava-se entre as mesas com uma perna manca nos membros inferiores e, sobre os superiores, um pescoço torto para à direita. Encontrou uma cadeira livre. Sentou-se. Contudo, nela permaneceu pouquíssimo tempo. Levantou e continuou a dar voltas, até que em determinado ponto deteve-se próximo a uma lixeira.

Com dificuldade para virar a cabeça, e estando de costas para o centro da praça, voltou-se com seu corpo inteiro para esta. Algo lhe perturbava, todavia não às outras pessoas. Retornou à sua posição original, e depois abaixou-se um pouco, colocando o ouvido muito próximo da lixeira ao lado da qual estava. Admirou-se, e deu um salto.

Assim que se assustou, correu, na medida em que conseguia, até uma conhecida funcionária que recolhia pratos vazios de uma das mesas. Ela era-lhe como uma amiga, e tampouco lhe negava atenções quando de suas visitas ao shopping Indiferença. Quando se aproximou, gaguejou eufórico pegando-lhe no braço.

— Láááá….lááááá…. – a mulher não entendeu, franzindo a testa em sinal de negação.

— O que foi Dudu?

— Láááá…láááá.. – Eduardo repetia.

— Eduardo, nós estamos muito ocupados agora. É horário de pico. Depois te dou atenção, tudo bem?

— Nãããoo…. – e desse vez indicava com a ponta do dedo, na direção da lixeira. – Láá…

A cena passou a chamar a atenção de alguns clientes, que com seus olhos reprovavam o que viam. Sentiam-se incomodados com a presença de um deficiente, e ainda mais pelo escarcéu que Eduardo fazia, perturbando suas tranquilas refeições civilizadas.

Há uns dois metros de distância, um homem de meia-idade largou seus talheres com displicência. O barulho da faca chocando-se contra o prato fora agudo, e seduziu a atenção de ainda mais pessoas. Levantou-se e, encolerizado, pronunciou.

— Alguém tire esse louco daqui, pelo amor de Deus! Não veem que aqui não lugar pra gente desse tipo.

A frase conquistou a aprovação da senhora que compartilhava a mesa com ele. No entanto, do restante das pessoas, apenas se podia afirmar que nada pensavam a respeito. Alguns esboçaram repugnância. Eram aqueles cujos filhos eram saudáveis e lhes aguardavam em plena saúde em casa, quando retornavam do expediente. Outros continuavam imersos em seus fones de ouvido, escutando suas músicas prediletas, que camuflavam os sons de toda a situação.

Constrangida em virtude da deplorável atitude daquele senhor, e profundamente ressentida por Eduardo, que nada compreendia, a funcionária tentou acalmá-lo.

— Eduardo, querido, tente se acalmar, – e acariciou-lhe o cabelo com seus delicados dedos. – depois conversamos. – Em seguida, tomou a mão de Eduardo na sua e conduziu-lhe para um canto; lá ele permaneceu, porém com os olhos ainda fixos à lixeira.

Assim que Eduardo foi levado para o canteiro, o homem que erguera-se olhou ao redor. Triunfante, sentia-se como se houvesse prestado algum tipo de auxílio às dóceis pessoas contidas na praça. Em seguida, satisfeito, murchou o peito e voltou para sua refeição, que confortavelmente ainda estava aquecida.

Às três horas da tarde, o espaço da praça de alimentação achava-se vazio; mesmo Eduardo já não estava no canto dele, ou em qualquer outro lugar do shopping Indiferença. Havia, porém, ainda a figura da funcionária e conhecida de Eduardo. Ela findara seu expediente. Cansada pelo estresse do horário de almoço, refugiou-se em uma cadeira.

Enquanto descansava, e suspirava suas últimas energias, sua visão deparou-se com o canto no qual Eduardo ficara durante um bom tempo, como que isolado da sociedade. Pensou sobre a crueldade das pessoas para com ele. Como era cruel chamar pessoas assim de semelhantes!

Recuperadas forças suficientes, ela ergueu-se, apanhou sua bolsa e pôs-se a caminho de casa. Porém, antes de deixar a praça de alimentação, assim que passou pela lixeira para qual antes apontava copiosamente Eduardo, escutou um choro muito baixo, mas perfeitamente audível diante do silêncio instalado. Estranhada, cessou o passo. Abriu a lixeira, e estremeceu.

— Buááá! Buááá! – o pranto infantil ecoava pela praça de alimentação.

Enfiou seus braços até a profundidade da lata, e dela retirou uma criança aparentemente abandonada. A funcionária chorou, acompanhando o pranto da criança. Apercebera-se que, diante do embrutecimento de uma sociedade egoísta e apática, Eduardo não era o louco; tinha algo a dizer.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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