De olhos cerrados

Fernando Pessoa (1888 - 1935)

Fernando Pessoa (1888 – 1935)

Na última vez que conversei com Fernando Pessoa, uma de suas pessoas enlouqueceu-me brandamente. E logo esqueci-me do que lia, interrompendo o passear dos olhos pelas linhas retilíneas; eis que voltaram-se-me para dentro de mim, numa escuridão absurda e pedregosa.

Estranhamente, eu precisava sentir aquele medo outra vez; raspar velhas feridas, como quem rala sem querer o joelho, ao tropeçar no meio-fio, e prostrado lembra-se de que havia ferimento na região patelar. Porém, o machucado sempre sangra com novas células, dada a hemodiálise que não se controla pelo coração ou pela alma; por isso não se poderia amar novamente como antes, ou ter repúdio à lembrança que já não pertence às primaveras.

A ferida passaria a cicatrizar, pelo tempo, com novo coágulo. E a visão, acostumada já à escuridão dentro de mim mesmo, vislumbraria um oceano de águas salgadas que não são poções mágicas aos ferimentos, como dizem os mais enrugados de pele e peito.

Todavia, nas águas revoltas do mar é onde se vence o medo para, quando se enlouquece, e se adia o cadáver que vive, revisitar as próprias relíquias de um museu do qual nada pode ser furtado e a visita custa tão só a coragem de cerrar os olhos, dispensando absoluta atenção aos meios-fios.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *