Confortavelmente entorpecido

Pink Floyd - The Wall Movie (1982)

Pink Floyd – The Wall Movie (1982)

Talvez eu ligue a televisão num desses canais que não transmitem nada senão o escândalo da vida cotidiana. Ouça durante cinco minutos o que cospem os participantes de um programa ridículo, cuja baixeza encenada seja capaz de iludir-me o espírito, e colocar uma gargalhada falsa, debochada e de curta duração em minha boca.

Após, torne mudo o televisor, ao toque de um botão desgastado entre tantos outros botões num controle remoto; e outra vez trave confronto com meu próprio pensamento, interrogando-lhe, como amarrando suas mãos e lhe torturando para que diga o que não sei responder: “como cheguei aos 37 anos desta maneira?”.

Ao passo que minha mulher viaja, quiçá eu deva perguntar-me se ela é realmente minha, já que ser humano algum detém posse senão de si mesmo. Posicionado ao seu lado durante dez anos, não sei o quanto nos afastamos, apenas que tal constatação é legítima.

Rumou ela para o Nordeste, há cinco dias, em empreitada que acordamos ser benéfica para ambos, e adicionalmente para nosso casamento. Sinto que ela não me ama mais; ou que talvez eu esteja formando esta conjectura para questionar meu próprio amor por ela. O fracasso em não ter tido ainda um filho, ou uma filha – conforme seu desejo latente, mas jamais em voz alta revelado -, tirou-nos a paixão que queimava como fogo juvenil, deixando cinzas secas em nossos corações feitos adultos à força. Mas será isso tão só minha impressão?

Acredito que seria interessante acionar o volume, outra vez, do aparelho televisor. Ouvir desinteressadamente as histerias alheias, e dar-se conta de que aquele circo, envolvendo conflitos estabelecidos em coisas tão superficiais, com casais que sorriem de sua própria mediocridade, só tem como espectadores quem também se apresenta.

Se eu adormecer com a televisão ligada, fazendo do sofá meu leito, não será em minha esposa que penso, nem nos colegas da repartição onde trabalho, e provavelmente vivem seus infernos particulares em suas casas, mas sim em como cheguei aos 37 anos desta maneira.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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