Category Archives: Lucas V. da Rosa

Andar (des)acompanhado

Se ao andar acompanhado dos rostos desconhecidos, na rua dos Linhares, enxergo a vivência mais diversa possível, é porque ali, talvez como em qualquer outra rua, haja a variedade das solidões, vestidas

Véspera de Natal

Logo que demos a receita de um suco de couve com batatas cruas, a ser tomado todos os dias, pela manhã, para que lhe fossem aliviadas as dores de estômago, a mulher

XC – Soneto dos noventa dias

Sempre que estive morto, ao abrir os olhos, O precipício era o que me trazia esperança, À desaparecer todos os pesados desconsolos Que faziam cruzar as mãos de sua lembrança. Um mundo

O serviço

Notei, mesmo perdido na contagem das folhas à minha frente, o tom melódico de sua voz, ao passo que falava de seus filhos. E pensei como nunca sentiria aquela doçura materna. Aquele

O fim de semana ensolarado

Uma senhora surge na sacada. Suas rugas brilham sob o fulgor do sol. No varal, ela pendura com paciência um pano de prato; imagina-se que todos os dias ensolarados ela o faça

Duas vezes

Não quero me apaixonar, Porque vi pássaros voando no céu. Eles voavam em círculos, Como se dominassem meu ar; Estipulavam-me ruidoso escarcéu, Atando-me belos, penosos vínculos. Não quero me apaixonar, Porque pássaros

O devorador de livros

Nem duas batidas na porta, e lá se vai alguém entrando. Porque assim o são com um filho as ocasiões de visita à casa dos pais, depois de crescido, emancipado e até

Dia de mestre

Era próximo a uma da tarde. As aulas do turno da manhã terminaram. E os alunos, juntamente aos seus mestres, haviam já lotado e principiavam a esvaziar o agradável restaurante Beira-Mar, localizado

Por quem os corações dobram?

Meu coração não está fechado para balanço. Nem aberto como se despede o inverno para que venham falsas primaveras. Meu coração é simplesmente o mundo. Desse modo, ao andar pelas ruas da

Amor fati

Há a impossibilidade de muitos saberes ao decair da noite: em não saber quais pedaços deles ir-me-ei desfazer, não da carne, mas do espírito, ao adormecer em travesseiro de incontáveis carneiros mortos.

Biologia erra

Você, escárnio imperfeito de maturidade tardia é a morte precoce do meu coração altivo e vivo; Sua mediocre sina se espelha não em seu reflexo mas no tropeço do lago de Adonis

Viciado eu me tornei, na droga da percepção

  “Oi, meu nome é Lucas Vinícius da Rosa, e eu sou um alcóolatra dos sentimentos cotidianos.” Tornei-me uma espécie de monstro com face delicada. Absorvi todos estes abraços que não pude

Poetas não sobem pódios

  E se aqui não houvesse a competição Seriamos todos iguais uns aos outros À medida que exibimos outros colossos O pódio iria à falência, e não em vão Todos comporíamos os

Débeis mentais no shopping Indiferença

Na praça de alimentação, localizada no terceiro piso do shopping Indiferença, Eduardo costumava perambular de um canto ao outro. Sem objetivo, apenas babava ligeiramente pelo canto da boca. Quando as gotículas de

A vida não imita a arte senão fazê-la

Arte não se faz. Surge. Portanto, firmado este pressuposto, florescer a arte é dar voz à paixão (latente e ardente que faz irromper o peito), de uma maneira ou outra associada à

O atentado

Embaixo do braço, ela carregava uma lancheira vermelha. Vinha vazia, exceto por meros pedaços de pão seco, restantes de uma refeição inferior à sua necessidade. Seu rostinho era tapado por uma burca

Escapada de mestre

Contarei a história deste mancebo. Um garoto jovem de poucas intenções. Não, retifico-me a tempo. Muitos eram os objetivos daquele ser jovem. No entanto, trazidas as máculas da juventude, bem se sabe

Uma lanchonete e os olhos que não mentem

Eu a via com frequência. Usualmente, nas madrugadas. Em meus regressos à casa boêmios e por vezes solitários. Seus cabelos compridos e negros achavam-se aglomerados de modo organizado, em forma de bola,

Poetas não vão para o céu

Para que sentisse a simplicidade, tive de mastigar complexos sentimentos e intragáveis feridas. E assim, em estado perplexo, veio-me sua imagem bela à minha frente. Um momento de quase epifania, em que

Pelo que somos todos réus

Estávamos dançando todos em volta do fogo que arde até que ficamos absortos pelo anúncio doutra morte Boquiabertos, estupefatos demo-nos conta outra vez que a chama tem apagos, e a vida não

Cara ou coroa

Encontramo-nos nesta sina: os dois lados de uma moeda cuja probabilidade desatina quando você cara, e eu coroa Vil metal que me destrona sempre que penso na vitória a sua ausência me

18 de Abril

Certa vez, andando pela rua, em pele nua despertou-me a ideia de que não estou só suscitou-me o sentimento de ser acolhido, abrangido, pelas asas de um anjo: Mãe! Mulher de atitude

Um ano e 10 mil agradecimentos…

Em março de 2013 o nosso amigo Palavreado.com.br completa um ano de sua simples existência. Quando inciamos, tínhamos o anseio de expor nossos desabafos, amparados pelos pilares bem estabelecidos da literatura. Essa

Meus sentidos e sua sinestesia

Usarei cinco estrofes para isso: discorrer sobre meus 5 sentidos que perturbam-se como em aviso de que sou vão sob seus sorrisos Minha visão cegou-me com gratidão foi quando, ainda que muito

Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa

Entre os diversos assuntos importantes da humanidade a serem abordados, eis que me ocorre um neste preciso momento. E sobre ele não escrevo como uma causa perdida pela ONU, ou tal qual

Sessão extraordinária no Tribunal de Osíris

Séculos escondem-se atrás de meus ombros, que pesam por isso. São épocas que, outrora, exibiram seres humanos moralmente criminosos. Por certo que os valores morais se modificaram com o escorregar dos grãos

Nasce mais um papel em branco

Mais uma criança acaba de nascer mal viu a luz do dia e já chorou; é o pranto do primeiro alvorecer do cordão umbilical que se cortou Beberá ela leites ou tragédias?

Sente-se, por favor

O texto é como uma cadeira; deve ser bem sustentado, por quatro pernas; necessita ser belo, de beleza que incite bom projeto; precisa, também, ter bom estofamento, pelo obséquio do conforto daquele

Para mães ou pais

Pais, não se preocupem demais houve demasiados demais aqui foram aquis muito localizados irei globalizar nossos abraços Desejo-lhes cinco continentes e quando eu estiver deprimente por falta de mim, ou ausente, terei

Furto afiançável

Assim que desembarcou, em frente à da casa de eventos Nova Vida, Maurício – o mau mau – viu-se solitário. Olhou para frente, em direção a uma grande faixa vermelha, com letras

Em terra de surdo, quem tem dois olhos é curioso

Meus cotovelos apoiavam-se no beiral da janela do quarto. No quarto andar, e na altura da mesma janela onde me debruçava, meus olhos ardiam em curiosidade. Observavam atentamente à conversação na portaria.

Remetente de bom destinatário

Quero ver-lhe por inteiro; admirar suas várias faces; tendo avistado seu cabelo saberei se somos metades Para cada maravilhosa parte aplicarei distinta análise na métrica do meu método seu milímetro é-me inquieto

Fortuito incidente geológico

Deram início ao seu trabalho. Em uma noite nada hibernal pelo verão foram convocados; ato puro de consumação carnal Na alameda da estrada incerta reuniram-se amigos quadrúplos cujo ímpeto, sem escrúpulo, desnudou-se

Pneumonia do amor

Foram dois inflamados pulmões dos quais só um deles curei doei o bom às minhas paixões e com elas, portanto, respirei Do sepulcro fiz ressuscitação risquei o epitáfio com graveto fosse eu

O ônibus da meia-noite

As ruas pareciam corredores vazios. Sem transeuntes, agiam como passarelas para as frias correntes de vento noturnas. De certo, as pessoas entocavam-se em suas cavernas aquecidas, elogiando uma estação fria, porém com