Category Archives: Conto

Os ossos quebrados

Havia dentro de mim a sensação de sentimentos quebrados como se meus ossos estivessem assim. Tal qual uma faca houvesse sido cravada no fêmur direito. Eu mancava, na direção dela, arrastando a

O serviço

Notei, mesmo perdido na contagem das folhas à minha frente, o tom melódico de sua voz, ao passo que falava de seus filhos. E pensei como nunca sentiria aquela doçura materna. Aquele

O passageiro inumerável

O funcionário da empresa viária tinha um olhar apagado, como a cor de sua gravata. Pediu-me o documento, verificou-o rapidamente, limpando o suor da testa e acrescentou: — Tenha uma boa viagem,

O fim de semana ensolarado

Uma senhora surge na sacada. Suas rugas brilham sob o fulgor do sol. No varal, ela pendura com paciência um pano de prato; imagina-se que todos os dias ensolarados ela o faça

A inocência impossível

Se era impossível a inocência, por que havia ainda o provimento do erro em tantas faces que queriam inversamente sorrir? D. não entendia, ao passo que muitos seguiam os ensinamentos dos sábios,

A grande fuga

Lembro-me de ter acordado e sentir-me como se ainda estivesse dormindo. Porque estava tudo muito escuro. Era como se as pálpebras se me pesassem insuportáveis. E não podendo abri-las, não havia a

Tarde repulsiva

À medida que ela se distanciava, o sol iluminava placidamente seus fios de cabelo raivosos (por que ela jamais os ajeitava quando estava entristecida). Ele a observava cabisbaixo, distante alguns metros, ao

Dia de mestre

Era próximo a uma da tarde. As aulas do turno da manhã terminaram. E os alunos, juntamente aos seus mestres, haviam já lotado e principiavam a esvaziar o agradável restaurante Beira-Mar, localizado

Ensaio sobre a exclusão

Um indigente repousa ao lado de sua garrafa plástica de aguardente, conforme se anunciam, da aurora, radiosos fios luminosos do céu desumano. À distância, ele se parece como o mais sujo item

O ciclo do eterno sucesso

Sr. Foster era um homem de sucesso. Na garagem, entre seus dois carros — um deles o caríssimo, porém estimável, último presente de aniversário de sua mulher –, repousava um modelo off

Transformando erros em ouro

Afundo os pés na areia fria, e antes que a onda mais próxima os aprofunde ainda mais, cruzo os dedos das mãos. Não executo reza alguma, no entanto. Neste gesto intenciono o

Amor fati

Há a impossibilidade de muitos saberes ao decair da noite: em não saber quais pedaços deles ir-me-ei desfazer, não da carne, mas do espírito, ao adormecer em travesseiro de incontáveis carneiros mortos.

Quando chorei pelos meus avós

Lembro-me de seus gestos que não sabiam escrever no ar. E depois da possibilidade de cometer todos os pecados, os quais apenas uma criança teria a coragem de aguçar sob a penitência

Confortavelmente entorpecido

Talvez eu ligue a televisão num desses canais que não transmitem nada senão o escândalo da vida cotidiana. Ouça durante cinco minutos o que cospem os participantes de um programa ridículo, cuja baixeza encenada seja

Na fila de espera

Lembro-me de sua perna direita menor que a esquerda. Mas ainda assim não mancava. Abria o portão todos os dias para os transeutes do condomínio. Nunca tive apreço maior ou menor por

Um molho de chaves vazio

Seria impossível, outrora, que minhas ausências fossem preenchidas pelo que sequer tinha ciência existir. Como um cego de cegueira leitosa, surgida das páginas amarelas de um livro de José Saramago, tropeçava nos

O homem que não sabia seu nome

A fila se estendia por poucos metros, mas o suficiente para dizer-se dela que era longa. Encontrava-se à vez um homem de média estatura. Suas pernas vestiam calça negra de linho; seu

O homem rotina

Estava ainda deitado, quando uma fresta de luz adentrou através da cortina esvoaçante, pela força da primeira brisa da manhã. Sem abrir os olhos, Humberto sabia que já era dia. Relutava, no

Olhos envidraçados

Meu grito tem se transformado num sussurro. Posso me comunicar com todas as instâncias desse modo, ao mesmo tempo em que escuto minha própria voz. Meu pensamento é meu castiçal com muitas

Eu sinto muito

Costumava me sentir triste diante do nascer do sol. Neste dia, em especial, não chorei quando ele surgiu. Não me despertei com lágrimas secas em jejum no travesseiro, ou com vontades as

A goiabeira

Havia nos fundos de casa, no quintal, uma majestosa goiabeira. Perdia-se entre as demais espécies de árvore que, desde que me recorda a memória, sempre fizeram parte do lote onde morávamos. Acompanhei-a

Viciado eu me tornei, na droga da percepção

  “Oi, meu nome é Lucas Vinícius da Rosa, e eu sou um alcóolatra dos sentimentos cotidianos.” Tornei-me uma espécie de monstro com face delicada. Absorvi todos estes abraços que não pude

As vidraças humanas

Olhei à direita. As vidraças da pizzaria eram verdadeiramente transparentes. Atrás delas, mesas recheadas de pessoas de carne e osso. Entretanto me pareciam todas elas, de onde eu as olhava, feitas de

Um aceno às paixões, sem o chapéu

Assento-me aqui, confortavelmente em uma cadeira sem estofado, para narrar esta descrição nem dos céus, nem dos infernos. Poderia falar da vizinha Gertrudes, cujo pano de prato está estendido no parapeito da

Ela era um verdadeiro tratado de Estética

Àquela altura da noite, em que a embriaguez me tomava o organismo, não poderia absolutamente deixar de me espantar. Sua beleza era lúcida, precisa e natural. Conversava, apoiado ao capô de um

José, o metafísico da lanchonete árabe da esquina

Em me debruçar na janela, ainda na adolescência da noite, constato o término de mais um dia para José e seus funcionários, na lanchonete de comida árabe da esquina. Chovera deverás durante

A praça ou A igreja

Uma brisa muito leve vinha de uma direção incerta. No entanto, embora quando rebatesse em meu rosto nada fizesse, era suficiente para carregar uma folha descansada abaixo do banco em que eu

Novelo cardíaco

Fiz-me, entre um abrir e piscar de olhos, um pretenso teórico e investigador. Elaborei uma teoria sobre a composição humana; mais precisamente sobre o coração dos homens. Menos um músculo cardíaco, dosado

Débeis mentais no shopping Indiferença

Na praça de alimentação, localizada no terceiro piso do shopping Indiferença, Eduardo costumava perambular de um canto ao outro. Sem objetivo, apenas babava ligeiramente pelo canto da boca. Quando as gotículas de

Romance moderno

Ela está com o celular à mão. Contorna a esquina com os olhos vidrados na tela. Está sequiosa, sedenta por um toque, uma vibração que indique que ele lhe contatou. Ele, distante

O reflexo refletido

Seus olhos, antes claros, estavam enegrecidos. Havia um sentimento inicialmente enigmático no olhar; depois, transformara-se, em seu pensamento, na revelação sobre sua condição atual: sentia-se despedaçada. Fizera planos com ele por muito

Desertores

Estive sentado à mesa da sociedade. Achavam-se ali muitos convivas sorridentes; outros ocultavam uma dolorosa angústia, ainda que igualmente ilustrassem os dentes. Enquanto se servia o banquete, alimentando, não democraticamente, poucas bocas

O atentado

Embaixo do braço, ela carregava uma lancheira vermelha. Vinha vazia, exceto por meros pedaços de pão seco, restantes de uma refeição inferior à sua necessidade. Seu rostinho era tapado por uma burca

Desencontro materno

Passeavam ambos, homem e mulher, de mãos atadas e dedos entrelaçados; faziam-no em passo vagaroso, sem ocuparem suas mentes com seus problemas cor de trevas negras, ou aparentemente insolúveis. Pelo contrário, aquela

Não inventei estas histórias que me sussurraram

As paredes estavam pintadas de branco. Assim acordei. E desde o despertar, comecei mais uma sina; mais um dia, diriam-nos os leitores das auto-ajudas desajustadas, vendidas nas lojas que não entro; e

Assassinato no quarto andar

Visivelmente, enxergavam-se os sulcos dos degraus da escada. Cada um deles tinha em sua ponta uma placa de mármore. Em cor de gesso, muito gelado em sua textura, misturado com algumas pintadas

O homem sem idade

Havia uma velha lenda que dizia: tu és a tua idade. Não é que descobri, realizando meticulosa contagem dos anos, que se tratavam de falácias que me ensinavam na escola, ou nas

O restaurante

A rua se agitava como costumeiramente exigia o ambiente urbano. Carros importados, que misturavam-se aos outros veículos de menor valor, cada um buscando ostentar o seu próprio valor, perambulando pelas vias. Andavam

A mulher da vassoura

Embora femininas, suas mãos possuíam calos, em marcas duras ressaltadas abaixo do início dos dedos. Precisamente na posição onde se colocava a vassoura, instrumento seu diário. Seu ofício fora estabelecido sobre os

Por detrás do véu negro dos olhos humanos

Inicia-se o conto pela narrativa da prostituta. Ela, como de costume, vestida em sapato de salto alto, vestido colado ao corpo, aderente às formas que a sociedade avidamente adora, com o tecido

Na terra do ontem

Estavam ambos assentados, um em frente ao outro, encarando cardápios cujos intens, em algum momento quase esquecido, foram seus olhares recíprocos. O estofado das cadeiras, de couro raro, confortava-lhes muito, exceto pelo

Eis essa criança que não sou eu

Suas mãos eram pequeninas. Quase não conseguiam abraçar as moedas da esmola recebida. Quando pedia, fazia da maneira como vira seu irmão mais velho realizar. Dissimulava uma desculpa qualquer pelo dinheiro. Pelo

Uma lanchonete e os olhos que não mentem

Eu a via com frequência. Usualmente, nas madrugadas. Em meus regressos à casa boêmios e por vezes solitários. Seus cabelos compridos e negros achavam-se aglomerados de modo organizado, em forma de bola,

Mães choram

Encontravam-se, mãe e filho, sentados de fronte um para o outro. Pelo rosto moreno, de uma textura sedosa e pacífica, escorria outra lágrima, outra vez, outro pranto. Mães choram. O filho não

O parto

Estavam no campo, cinco horas distantes da cidade, e do posto médico mais próximo. Escurecia. E o vento quase noturno atravessava com força as árvores que rodeavam a fazenda. O lugar era

No meio do caminho tinha uma inspiração, tinha uma mulher no meio do caminho

Está escorrida a última lágrima do Cristo Redentor. E quando ela pingou no chão, sem esmo, mas contundente, ele percebera que tudo ao redor estremeceu. Contrariou-se a refutável máxima de que, no

O sumiço

Artur percorria com olhos radiantes as vastas e preenchidas prateleiras do supermercado. Enquanto procurava incessantemente a seção de doces, seu pai, Matheus, fazia-lhe uma silenciosa companhia; de modo que achava-se demasiado atento

Ao lado do divã

Jim Morrison trajava sua costumeira veste excêntrica. Uma calça de couro erguia-se até a altura do cós, justapondo-se a seu corpo. A camisa, dessa vez, porém, era branca e sem adornos. Naquela

Cinco atos no Mundo Novo

A preparação Antes que o sol ilustrasse seus primeiros raios fulgentes, no dia 15 de Maio de 1510, quatro guerreiros astecas Jaguar encontravam-se reunidos, ao pé da floresta. Posicionavam-se a 150 quilômetros

O marido da madrugada

Ele simplesmente não conseguia dormir. Havia algo de perturbador na noite, o que lhe impedia de estabelecer o estado de sono. Sua cabeça latejava. Não apagava, conquanto seus membros estivessem deverás cansados.

Existem contos, mas não fadas

Em 1881, Machado de Assis inaugurava o realismo, com seu Brás Cubas. Ainda que a hiprocisia humana, e seus equívocos, tenham sido inaugurados muito tempo antes. Estamos em 2012, e me recuso,

Quadrilátero amoroso

Pairando sobre a imaturidade adulta, construíram-se duas pontes, uma quebradiça e outra sólida, a interligar um quadrilátero. Cabe, agora, uma advertência: aos que esperam aqui um triângulo amoroso, ou dotado de outra

Regresso ao divã

De aspecto antigo, com ponteiros de cor prata, reluzentes, o relógio marcava quatro horas, pontualmente. Embora mantivesse como característica traços antiquados, a hora marcada era recente e oportuna. Naquele instante, Jim Morrison,

Furto afiançável

Assim que desembarcou, em frente à da casa de eventos Nova Vida, Maurício – o mau mau – viu-se solitário. Olhou para frente, em direção a uma grande faixa vermelha, com letras

Um estudo incorreto

Quando finalmente pude me levantar, e acender a luz, uma vez que me encontrava na escuridão, o choro não cessou. Sentei-me em uma dura cadeira, de plástico branco, em frente a uma

O apartamento 104

A noite caia lentamente, trazendo consigo silvos e uivos de animais estranhos. Seres nada urbanos. Ambiente hospitaleiro a Rômulo e Remo, portanto, lobos no deserto das cidades. Intrépidos, os dois irmãos conversavam

Caça às pérolas

Quando acordei, eu não estava em Estado nenhum. Sem Estado, portanto, não havia estado de direito, nem lei que me subjugasse a qualquer ordem. Entretanto, ao olhar para frente, um oceano sobrepujava

Jantar antropofágico

Fazia tantos dias que ele não abria aquela janela. Sempre acordara com sua pele esbranquiçada, afinal, ali, o sol era impedido de adentrar. Sua cama não o fazia sentir-se em bom leito.

Infração gravíssima

Muros altos escondiam a vasta extensão do condomínio residencial. Em sua fachada, pintada em alternância com tons de azul e branco, havia uma pequena cabine. Ali, daquele pequeno anexo, um porteiro controlava

O primo horripilante

Havia beleza no fim de tarde. O crepúsculo do sol irradiava os últimos belos traços de luz. Aquecidos por esses raios, na esquina de um pequeno mercado, próximo a minha casa, eu

Divã supostamente inspirado

Um toque tímido na porta sibilou pela sala do consultório. Fora muito tênue, porém. Passaram-se uns segundos. Ouviu-se outros três toques, estes mais decididos. “Pode entrar”, disse uma voz rouca. Assim que

A imolação síria: na sala de tortura

Continuação da série “A imolação síria”. Ainda não leu os contos anteriores? Não seja por isso, clique aqui (Parte I), aqui (Parte II), aqui (Parte III) e aqui (Parte IV) Sem janelas

O vendedor de morangos diferente

Esparramadas pelo céu, nuvens cinzentas afugentavam o azul vivo da superfície celeste. Estufadas de água em seu ventre, escureciam a tarde dos transeuntes da Rua Gregório de Matos. Normalmente demasiado movimentada, essa

O ônibus da meia-noite

As ruas pareciam corredores vazios. Sem transeuntes, agiam como passarelas para as frias correntes de vento noturnas. De certo, as pessoas entocavam-se em suas cavernas aquecidas, elogiando uma estação fria, porém com

A imolação síria: atentado tentado

Na última parte da série “A imolação síria”, o sepultamento de Hanin anunciava uma suposta interrupção do conflito sírio. Ledo engano deste autor que vos fala. Assim como guerras preenchem os meandros

Taxa de entrega

Cinco minutos, não durou mais que isso. No entanto, nesta curta duração, repousava o gosto amargo da irreversibilidade. Em cinco membros, os passageiros do carro interromperam seus ânimos. Tiveram sua alegria estarrecida

O homem da respiração avermelhada

Aqueles eram seus últimos suspiros. À medida que forçava seu diafragma e pulmões, suplicava pelo oxigênio do mundo externo. Ele queria toda a atmosfera para si. E não conseguia. Era tarde demais.

O casebre

A casa não era muito grande. Quadrada, tinha sua largura e comprimento curtos. Longas ripas de madeira revestiam suas paredes. Madeira velha, degenerada pela força do tempo, que há muito costumava bater

As palavras, as coisas e um shopping center

Estático, em posição bípede, Michel reconstruía as letras do aviso da porta que dava acesso ao shopping: “Ar condicionado. Mantenha a porta fechada”. Para este mundo moderno, decididamente, o aviso era redundante.

A imolação síria: enterrando o conflito

Nesta terceira, e possivelmente última, parte da série “A imolação síria”, a trama vivida por Hanin, seu primo e o Exército Sírio Livre toma prosseguimento. Ainda não leu o primeiro e/ou segundo

A despedida do sol

O sol despedia-se mergulhando no horizonte. Era possível ver seus raios avermelhados acomodando-se sobre o mar. No rosto, já trabalhado pelo tempo, sentia a carícia de um vento nordeste, trazendo em seu

Os otários

Ao longe, num ponto ínfimo, distante, ele podia ser avistado. Estava sentado sobre a ponte, numa haste externa desta, quase que como assentado à beira de um precipício. Sem nome nem data

A imolação síria: catarse

Este conto é a segunda parte, uma continuação, da série “A imolação síria”. A ideia permanece a mesma, seguindo a linha do conto anterior: transformação de notícia em prosa, buscando, talvez, uma

A imolação síria: Homs em chamas

Pessoal, abrindo a seção de contos do Palavreado, inicio uma série de contos cuja temática circunda as revoluções anti-regime opressor, acontecidas em parte da África e da Ásia, mais especificamente na Síria.