Aos coveiros de carneiros

Malditas nuvens não se parecem
jamais elas como uns carneiros,
observo-as no alto, e elas tecem
uma dança dúbia de movimentos

O que igualmente assim se move?
O olho irrequieto do coveiro débil
que, com a sua pá, conta a morte
a cada cavada nesta terra estéril

Com sangue já seco, antes denso,
torna-se outra vez o chão úmido;
não mais que húmus, mas fecundo;
nos segundos após, eu desconheço

se estou enterrado ou enterrando.
Coveiros reunir-se-ão em sindicato
e, por desacato, eu tenho evitado
tal assembleia da morte este ano.

Cuidarei agora mesmo, me creia,
de calcular quanto é de carneiro
a estar no céu ou nos cemitérios,
em que traças terão a última ceia.

Autor: Lucas Vinicius da Rosa

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