Amor fati

Amor Fati

Há a impossibilidade de muitos saberes ao decair da noite: em não saber quais pedaços deles ir-me-ei desfazer, não da carne, mas do espírito, ao adormecer em travesseiro de incontáveis carneiros mortos. E desaparecidas minhas partes já não serei mais eu mesmo quando acordar.

Com o rosto enrugado, ao sinal do primeiro sorriso espontâneo (quando me lembrar da última paixão iludida), os dentes serão espelho de outra alma; talvez mais suja, se irritada com os sonhos atormentados, quando lembrados dos amores partidos ao meio, pelos machados empunhados por mãos aparentemente invisíveis; ou límpida, como transcorrem as águas das nascentes dos Andes, se de nada eu lembrar-me, senão da profundidade de um sono intranquilo.

Assim, ao despertar para outro dia, continuarei a sina dos sofrimentos não escolhidos, e das escolhas despertadas. Quem sabe, com sorte, tropece na cadeira da cozinha, e uma dor pequena, na ponta do dedo do pé, traga-me um ingênuo gemido que direcione o pensamento para a bela percepção matutina. Então, finalmente, dar-me-ei conta: estou vivo outra vez!

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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