A vida não imita a arte senão fazê-la

Arte não se faz. Surge. Portanto, firmado este pressuposto, florescer a arte é dar voz à paixão (latente e ardente que faz irromper o peito), de uma maneira ou outra associada à habilidade, e posteriormente, em níveis maiores, ao talento. O incentivo ao desenvolvimento da habilidade é, em geral, tardio ou inexistente — principalmente pelos métodos ortodoxos pelos quais nos educamos, em estruturas cujas janelas são oprimidas, pequenas, e não deixam passar a luz que acende a criatividade.

Se não há paixão nos momentos iniciais, cabe ao próprio apaixonado, se verdadeiramente ele o é, correr atrás do talento. Mas, perguntar-me-iam, por que a associação entre a arte e a paixão? Eu diria que uma não existe sem a outra.

A extensão do que se pode fazer perante ao que mais se acredita (contrariamente a sucumbir ao que se impõe), aquilo que brota do coração e exala pelos dedos dos músicos, ou pelas mãos dos escritores, ou pelo imaginário do cineasta (não importa) depende exclusivamente da paixão.

Exemplos poucos (aqueles que se revelarão sucedidos em sua árdua luta pelo que acreditavam) demonstram a imprescindível arte de acreditar na própria arte. Imagino isso pela metáfora de que o cantor estremece sob sua voz e, em fazê-lo, transmite tal arrepio a sua plateia; ou o artesão, que em sua diligência quanto ao objeto moldado, faz daquela peça a melhor possível, até que seja desafiado pela próxima a ser feita; ou do surfista, que arrebenta sua pele nos corais, mediante as maiores ondas já por ele surfadas, e se dispõe e rasgá-las na próxima oportunidade com ainda mais vigor; ou ao escritor, que pensa sempre ultrapassar sua última obra, e arregaçar sua sensibilidade para exprimir mais; ou ao corredor de carros, cujo risco de perder a vida diminui frente a possibilidade de triunfar a si mesmo frente a sua limitação antiga.

Isso é arte; isso é paixão; nem me disponho, aqui, a falar sobre os que não tentaram. Estes nem mesmo saberiam ler estas linhas.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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