A imolação síria: enterrando o conflito

Nesta terceira, e possivelmente última, parte da série “A imolação síria”, a trama vivida por Hanin, seu primo e o Exército Sírio Livre toma prosseguimento. Ainda não leu o primeiro e/ou segundo conto? Não seja por isso, clique aqui (Parte I) e aqui (Parte II).

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O espelho, que estava de fronte a ele, refletia um semblante cerrado. Seus olhos profundos, de iris escura e marcante, afundavam-se ainda mais em seu rosto cansado. Sua barba, sob a necessidade de ser feita, porém corrigidamente ajustada ao formato de seu rosto, compunha, e completava, sua expressão de tristeza. Trajava terno impecável, revestido por tecidos pretos em todas as partes. Encobria, inclusive, nessa mesma cor preta, seu coração. A fazer um último retoque em sua gravata, tornando-a à sua posição ideal, buscava entender o preço de toda aquela luta. Pensava em quantas subtrações de vida seriam necessárias para a adição de paz; por quanto tempo carregaria o remorso da morte de pessoas próximas a ele?

“Abu, vamos? ”, disse uma voz em direção a Abu Al Homsi, ecoada pela abertura da porta que dava para o quarto. Não houve resposta do primo de Hanin. “Abu, você está bem?”, perguntou, preocupada, a mesma voz.

Abu, embora acompanhado pela presença de um interlocutor ao sopé da porta, permanecia paralisado em frente ao espelho. Continuava seu pensamento a respeito dos últimos meses; particularmente sobre as últimas semanas. Se soubesse, por uma intuição, que seu pequeno primo, Hanin, estava escondido em um dos carros do comboio de fuga dos jornalistas, jamais teria prosseguido com a operação. Se imaginasse que aquele mesmo Hanin, apenas uma criança, ficaria, durante semanas, afixado a uma cama improvisada de hospital, sob sofrimentos algozes, teria repensado todo seu papel naquela revolução. Teria ido à Rússia ou à China, ameaçado derrubar a grande muralha chinesa, se necessário, para que o plano de paz do enviado especial da ONU, Kofi Annan, fosse cumprido criteriosamente pelo regime sírio. Desejou que as contendas diplomáticas, grandes influenciadoras no direcionamento do conflito, fossem deixadas de lado. Quis, mais que tudo, que menos primos fossem enterrados por seus parentes.

“Estou bem, sim.”, respondeu, consideravelmente depois, Abu à Ahmed. “O corpo de Hanin já foi transportado para o lugar combinado?”

“Sim, Abu. Podemos prosseguir para a salat-l janazah.”. Ahmed, homem fiel ao Exército Sírio Livre e ao seu amigo Abu, notou, como todo soldado precavido percebe, que a arma de seu colega estava depositada sobre a escrivaninha. Assim que Abu distanciou-se de tal móvel, Ahmed, intrigado, indagou. “Você não vai levar sua arma, meu amigo?”

“Não mais Abu.”, e suspirou. “Talvez devamos acreditar no cumprimento do cessar-fogo do presidente.”, falou. Em seguida, repreendido por uma expressão de descrença de seu amigo, rebateu. “Chega de morte. Basta de sangue, Ahmed. Não é isso que Alá quer para nós.”, e afirmou, “Podemos ir.”

Havia sol, mas o dia não estava iluminado. Um clima denso, determinado pela temperatura gélida de cada um dos presentes, dava a cadência da cerimônia funesta de Hanin. Envolto em lençóis de pano branco, de limpidez reparável, conforme define o ritual de enterro islâmico, o corpo de dimensão reduzida era velado. Na dianteira da atividade religiosa, de costas para os demais, o imame, líder de orações, recitava trechos selecionados do Alcorão. Anunciava, segundo os preceitos de Maomé, a importância da ingenuidade infantil, o quanto ela nos aproxima do lado humano, afastando-nos, assim, do lado assassino.

Dentre a população de soldados, solidários às milhares de vidas apunhaladas nos últimos treze meses de revolução, era possível ver Abu. Petrificado em silêncio, estabeleceu-se, durante um longo período, em estado de auto-flagelação. Incólume em sua postura externa, estava, verdadeiramente, despedaçado por dentro. À medida que a cólera crescia dentro de si, alcançou um nível máximo de desconsolo. E, assim, frágil como algo facilmente quebradiço, porém ainda homem posto em pé, verteu uma lágrima.

Alguns metros à direita de Abu, Ahmed observava atentamente a agrura de seu amigo. Entendia, em totalidade, cada respiração silenciosa do primo de Hanin. Sabia que o oxigênio de cada aspiração era traduzido, justamente, em emoção fervorosa irradiada pelo esqueleto. Tinha plena consciência de que homens, mesmos os mais fortes e impávidos, também choravam. Pensava que essa guerra de libertação, congruente ao funeral de Hanin e ao pêsame de Abu, libertava a nação síria, porém muito custosamente; para libertar a vida, insistia em acorrentar-se à morte.

“Não é isso que Alá quer para nós.”, Ahmed pronunciou quietamente para si essas palavras. “Abu tem razão”, concluiu.

Datado de uma semana, o cessar-fogo, tão requerido pela comunidade internacional, podia ser visto em diversas regiões do território sírio. Entretanto, ponto crucial da batalha entre o presidente al Assad e os protestantes, Homs mostrava-se irredutível em erradicar todos os disparos. Forças do governo e o Exército Sírio Livre conservavam, um para com o outro, uma desconfiança insustentável. Aproximando-se do momento em que centenas de observadores, selecionados pela ONU, seriam enviados para monitorar os pontos do plano de paz, as explosões diminuíram. Menos balas estalavam pelos canos dos fuzis. Menos pólvora caía sobre o chão. Mas ainda havia morte.

O Alcorão, ainda aludido pela voz do imame, percorria a mente dos fiéis aglomerados atrás do cadáver de Hanin. Por conseguinte, a cerimônia, tipicamente silenciosa, era, vez ou outra, interrompida por ruídos de tiros, gritos de perto e de longe. Mesmo assim, os participantes do funeral concentravam-se em sua inércia velada, respeitando a memória da criança falecida.

Eis que, de repente, abrindo caminho entre as pessoas, Ahmed pôs-se a se mexer. Andou até muito próximo de onde encontrava-se o primo de Abu, estarrecido em seu leito de morte. Olhou para Hanin. Depois voltou-se para trás. Fitou Abu. Austero em sua atitude, apanhou sua arma, justaposta a sua cintura. Com sua mão direita, ainda olhando firmemente para trás, colocou a arma ao lado do corpo. Abaixou sua cabeça.

No entanto, inicialmente, não houve um entendimento para aquela ação. As pessoas se entreolharam, hesitantes, reservadas. Todavia, logo após, compreenderam. No compasso da compreensão, um a um, os integrantes do Exército Sírio Livre marcharam para a frente. À semelhança do que fora feito por Ahmed, cada soldado depositou sua arma em lugar adjacente ao corpo de menino. Sepultavam-no. Em frequência solene, em forma de fila, baixavam a guarda, abdicavam de sua munição. Renunciavam às suas armas, para que Hanin ressuscita-se no sorriso de outras crianças sírias.

Hanin, o garoto que queria matar o presidente, pôde então descansar em paz. Encontraria seus pais, em algum lugar, sem as faces desfalecidas ou perturbadas por explosões. Seu funeral inseriu um epitáfio em cada um dos milhares de túmulos cavados em mais de um ano de guerra civil. Sua cerimônia de morte desarmou soldados, enterrou o conflito. Hanin era o cessar-fogo da Síria em pessoa, em defunto.

*salat-l janazah: oração realizada tradicionalmente em ritual funerário islâmico

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

One Response to A imolação síria: enterrando o conflito

  1. […] crônica abaixo faz menção a outros dois textos, nomeadamente o conto A imolação síria e a crônica Gabriela; além disso, o autor adverte que seu intuito foi tirar sarro de si mesmo, e […]

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