A imolação síria: catarse

Este conto é a segunda parte, uma continuação, da série “A imolação síria”. A ideia permanece a mesma, seguindo a linha do conto anterior: transformação de notícia em prosa, buscando, talvez, uma maior humanização das frívolas manchetes de jornal que nos bombardeiam diariamente. Perdeu o primeiro? Clique aqui.

O conto relaciona-se, fundamentalmente, a estas notícias:
Retirada de jornalistas feridos da Síria é supreendida por emboscada
Síria: há 30 anos, tinha início o massacre da cidade de Hama

Bandeira da Síria

Um estrondo, de uma bomba, o despertou. Era quase noite. Tiros ainda podiam ser ouvidos, porém em menor quantidade que em algumas horas atrás. Com seu pequeno corpo recostado num sofá empoeirado, Hanin, quando acordou, viu-se em posição fetal num dos quartos da campana articulada pelo Exército Sírio Livre. Estava sozinho no cômodo. Através da porta entreaberta, era possível escutar movimentação na sala logo ao lado, lugar onde desmaiara momentos antes. Sem ser invadido por pesadelos – sequer sonhara, não tivera tempo para isso –, o garoto removeu resquícios de sono ou cansaço. Levantou-se, restituindo suas pálpebras a uma posição mais alerta. Na ponta dos pés, encurtou a distância entre si e o vão da porta.

“Sim, ele ainda tá dormindo.”, Hanin escutava os quase sussurros que ecoavam da sala. E a mesma voz continuou. “Mas não sei o que fazer como ele, meus tios foram mortos pelo bombardeio. E, por Alá, não posso deixar meu primo sozinho. Sei como é difícil perder os pais num massacre.”, desabafou Abu, primo de Hanin, sem saber que seu parente escutava tudo ao pé da porta.

Abu al Homsi referia-se, por meio da fala sobre o extermínio de seus pais, ao massacre de Hama, cidade localizada ao norte da Síria, onde, em 1982, os tios de Hanin foram friamente assassinados pelas forças militares do presidente Hafez al-Assad, pai de Bashar. Trinta anos após a repressão inexorável aos sunitas, Abu ainda sentia em suas entranhas raiva e aversão à família presidencial; não permitiria, de forma alguma, que Hanin empunhasse um rifle, todavia faria o que estivesse ao seu alcance para vingar a morte de seus pais e, mais recentemente, de seus tios.

“E quanto aos equipamentos de telecomunicação, Abu?”, perguntou um militante, com um rifle na mão, ao passo que houve imediata resposta.

“Pois bem, conseguimos salvar parte do material de tecnologia enviado pelo pessoal do Avaaz. Isso significa que…”, Abu falava, porém fora interrompido.

“A missão tá de pé!”, exclamou o efusivo rebelde.

Hanin continuava, quietamente, a observar os discursos levados a cabo na sala.

“Tá sim, Ahmed.”, e, posteriormente, explicou. “Tanto o Crescente Vermelho como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha têm falhado no processo de retirada dos jornalistas ocidentais. A francesa tá realmente ferida na perna. Com isso, e diante da invasão devastadora dos soldados do desgraçado do al-Assad, não temos alternativa senão intervir diretamente. Hoje! Precisamos que os jornalistas levem para o mundo o retrato do inferno que estamos vivendo aqui !”, e completou com uma saudação. “Salaam Aleikum, Ahmed.”

Antes que Ahmed pudesse retribuir a saudação religiosa, Hanin, que até então colocara-se como mero espectador da conversa, bradou de onde estava.

“Eu vou junto com vocês!”.

Os dois homens, postos no centro da sala, tangentes à mesa de armamentos, entreolharam-se assustados. A criança, que supostamente fazia apenas dormir, acabara de tomar contato com a possibilidade de contar a todos, ao mundo, a atrocidade desferida contra seus pais. Para Hanin, e ele compreendia isso muito bem, acessar os jornalistas permitiria descrever, em escala global, seu ódio ao presidente. Poderia, não obstante, contar sobre os cadáveres que vira, sobre seus pais estirados no chão da sua própria casa, sobre os diversos manifestantes atropelados pelos tanques de guerra do governo. Um governo que nem mesmo ele, nos seus dez anos de vida, queria para si e para seus semelhantes.

Abu entendia cada entonação colérica do menino. Era complacente aos sentimentos de seu primo. Fora ele, no passado, um protagonista de espetáculo trágico semelhante. No entanto, lá de dentro, uma voz protetora se sobressaiu. Hanin era uma criança e, como tal, deveria ser, ao máximo, preservada.

“Não, Hanin!”, Abu estipulou, ao seu primo, ordem negativa. “Prometo que nós vamos honrar todos aqueles que morreram, assim como nossa causa. Confie em mim. Lembra quando a gente soltava pipa e aqueles garotos mais velhos queriam te bater porque você havia cortado a pipa deles?”, fez-se uma pausa. Hanin acenou com a cabeça em sinal afirmativo. “Pois então, eles nunca mais te incomodaram, não foi?”, instanciou-se outro hiato. Novamente, o queixo do garoto fez que sim, oscilando para cima e para baixo. “Então, Hanin, assim como dei conta do recado antes, farei o mesmo agora!”, disse batendo seu punho direito contra o peito.

A psicologia aplicada por Abu al Homsi teria surtido bom efeito, não fossem as circunstâncias dramáticas. Mohammed Hanin quis acreditar em seu primo, porém não conseguiu. Talvez as imagens recortadas das ruas vermelhas da cidade, juntamente ao orfanato precoce, o impedissem de ser somente uma criança que confia num adulto. Tão ligeiro quanto numa pelada no campo de futebol Al Bassel, o menino desviou dos defensores. Desapareceu escadas abaixo.

No lado de fora do quartel general improvisado do Exército Sírio Livre, Hanin camuflou-se numa construção, em frente ao local de onde acabara de fugir. Passado um minuto, talvez menos, viu duas figuras, a de seu primo e de Ahmed, surgirem na rua; seguiram, apressados, um para à esquerda, outro para à direta. Imbuído em esperteza, Hanin estava à frente. Decorridas algumas centenas de segundos, os dois resgatadores de garoto fujão retornaram. Hanin sustentou-se entrincheirado, às sombras das vistas vigilantes de qualquer transeunte que na rua passasse; fora bem sucedido em se esconder; os homens recuaram para o quartel general.

Mapa da Síria

Do fundo da sua trincheira particular, com os dedos miúdos apoiados na parte de cima de uma mureta, Mohammed Hanin assistia cuidadosamente ao silêncio da ruela. Alguma coisa estava prestes a acontecer, afinal, naquele dia de Fevereiro, nada havia sido tranquilo. De repente, houve movimentação. O vento noturno, que soprava em direção à sudoeste – rumo ao Líbano, para onde pretendia-se empregar a fuga dos jornalistas –, fora irrompido. Adentraram o campo de visão de Hanin dois grandes carros negros, que estacionaram um em frente ao outro. De dentro de um deles, saíram três homens. O trio aproximou-se do outro veículo, que teve uma de suas portas abertas; dela, uma maca, com uma mulher estirada, foi aos poucos sendo puxada pela força braçal dos três indivíduos. Em pouco tempo, a mulher foi substituída de carro. Hanin observava à cena.

A articulação que ocorria rápida e sutilmente despertou o interesse do menino. Assim que seu primo entrou num dos carros, Hanin não titubeou, e seguiu Abu. Embarcou, sem que percebessem sua minúscula presença, pela porta do lado esquerdo. Já no interior do carro, viu-se ao lado da mulher deitada sobre a maca. Ela estava desmaiada. Escondeu-se atrás do banco do motorista, próximo, mas imperceptível, à visão dos outros passageiros. O motor foi ligado. Hanin sentiu um deslocamento de quatro rodas.

Tendo sido duas curvas e uma longa reta percorridas, o garoto, escondido sob o banco de trás, notou que a mulher havia acordado. Com expressão de dor descomunal, mas aparentemente contida, ela rangia os dentes em sinal de dor. Ela virou o rosto para a face de Hanin. O garoto se sobressaltou. Esperando ser delatado, levantou o dedo indicador, como se sinalizasse não querer ser descoberto. Num esforço, tentando vencer a expressão facial dolorida, a mulher aquiesceu; levou, em seguida, sua mão em direção ao fêmur. Parecia tentar aliviar seu sofrimento com o simples toque dos dedos. Hanin se compadeceu e, inteligentemente, deduziu, pelo ferimento na perna, que aquela era um dos jornalistas centrais à missão de fuga da Síria, discutida por seu primo com Ahmed, horas antes. Ele empolgou-se, e se descuidou.

“Você é a jornalista não é?”, e prosseguiu, estupefato. “Por favor, você precisa dizer que o presidente matou meus pais. Eles morreram na minha frente! Por favor!”.

Antes que Hanin terminasse sua súplica à jornalista francesa Edith Bouvier, o céu tornou-se extremamente claro. Fogos de artifícios, misturados ao som horripilante de balas e explosões de granadas, iluminaram, de forma fulminante e ardente, a noite permeada por uma emboscada. O comboio de dois veículos dividiu-se. Olhando pelo vidro, Hanin flagrou um morteiro estilhaçar-se ao seu lado. Capotaram. Conforme o carro dava voltas, sendo raspado junto ao chão, Hanin, ingênuo, mostrou-se herói. Abraçou, com seus finos braços, a mulher que contaria ao mundo sua tragédia.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

2 Responses to A imolação síria: catarse

  1. […] Nesta terceira, e possivelmente última, parte da série “A imolação síria”, a trama vivida por Hanin, seu primo e o Exército Sírio Livre toma prosseguimento. Ainda não leu o primeiro e/ou segundo conto? Não seja por isso, clique aqui (Parte I) e aqui (Parte II). […]

  2. […] parte desta série. Ainda não leu os contos anteriores? Não seja por isso, clique aqui (Parte I), aqui (Parte II) e aqui (Parte […]

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