A goiabeira

A goiabeira

Havia nos fundos de casa, no quintal, uma majestosa goiabeira. Perdia-se entre as demais espécies de árvore que, desde que me recorda a memória, sempre fizeram parte do lote onde morávamos. Acompanhei-a desenvolver-se, de fotossíntese à fotossíntese, o que se configurou na melhor aula de botânica a mim lecionada pela vida.

Ainda em seu estágio jovem, sobretudo nas temporadas de outono, lembro-me de seu caule descascado em estruturas secas como eram as suas folhas. Alguma rajada de vento, um pequeno sopro de ar, era já suficiente para arrancar-lhe determinados pedaços, sem que houvesse dela, por isso, reivindicação qualquer. Assim ocorre igualmente com os seres humanos, porém de uma maneira em geral mais cruel: à medida que são perdidas determinadas partes, nem sempre há a sua reposição nas estações vindouras; isso indica a fúnebre possibilidade de fracasso nos transplantes — seja pela má cirurgia, ou pela ausência de órgãos compatíveis ou que não chegaram em tempo ao vivente.

Preferiria eu ter nascido uma goiabeira, quem sabe; seus sofrimentos parecem-me mais justificados que muitos outros sofrimentos que sentimos.

Rodeado de adultos encaixotados, desenvolvi, através de reflexão espontânea e após muita goiabada digerida, uma teoria sobre porque talvez eu tenha entrado numa caixa, ao longo dos anos numa sociedade que educa, mas não possui talento algum para ser professora.

Tal teoria tem pressuposto na própria goiabeira. Longe de ser um mero entulho de galhos, cujas extremidades provêm os frutos tão suculentos como a infância, a goiabeira não era apenas uma planta. Com base nela, fazíamos, meus amigos e eu, verdadeiros projetos de arquitetura para construção de uma casa entre e sobre seus troncos; ou então procurávamos por um galho sobressalente, e suficientemente forte, para se pendurá-lo um balanço improvisado num pneu; ou ainda, se otimamente calculado por Juquinha — o geômetra –, e vizinho-amigo de mesma idade e escandalosa capacidade de invenção, do galho poder-se-ia prender uma corda; e esta ligar-se-ia a uma janela da casa, de modo que no encordamento estirado se pudessem deslizar crianças pulsantes de um para outro lado; desconhecíamos que essa brincadeira tinha nome; chamava-se tirolesa. E ainda assim nos divertíamos, ficando demonstrada, desse modo, a profunda inutilidade dos nomes das coisas. Em outras palavras, os sonhos eram todos possíveis. Sonhava-se sem os limites adultos que envenenam a imaginação. Eis a teoria.

Juquinha, o geômetra, e também melhor contador de estórias macabras que Edgar Allan Poe, disse certa vez que a vizinha, que morava em nossa casa antes de nós, era adepta de rituais de mortificação. Desde que seu marido falecera, roubava ossos nos cemitérios para enterrá-los em seu território particular (anos depois, nosso aconchegante quintal). A primeira ossada havia sido a de seu marido. As segundas e terceiras, de seus próprios parentes, cujos túmulos foram esvaziados, sem explicação ou notícia no jornal da cidade, do Cemitério Central Olavo Bilac — mesmo hoje sem vagas para novas mortes. Ainda conforme Juca, em vez de uma grande cruz plantada pela velhota, em seu lugar nasceu uma goiabeira — essa própria em que planejávamos construir, sem saber, um mausoléu para as vítimas da idosa psicopata.

A goiabeira remetia docemente à época de maior vulnerabilidade na vida, e ao mesmo tempo à de maior sinceridade, porque demonstrava que a morte não era um bicho de sete cabeças. As goiabas amadurecidas na infância vi-as tornarem-se, muitas delas, podres em consequência do envelhecimento putrefato adulto. Entretanto, árvores também envelhecem, e tal evidência não se refuta com facilidade.

Certa vez, o pé de goiaba foi acometido por uma forte geada, que lhe viera sem aviso prévio; e se tivesse sido advertida pela previsão climática do jornal, duvida-se muito de que aquela árvore parada pudesse fazer algo a respeito. No entanto, mesmo com seus galhos congelados, uma promessa de frutos escassos, um xilema e um floema mais viscosos que o habitual, e um sol deficiente em sua responsabilidade de aquecê-la — ela ainda assim venceu a doença. Diferentemente do homem, que, sendo o mais ilustre entre os animais que caminham — o supostamente mais virtuoso, que reina e domina sobre a natureza e sua própria espécie –, é então mais susceptível à doença que uma goiabeira sem agasalho.

Não revelei, ainda e contudo, o enigma da minha lembrança da goiabeira. Não me veio num sonho freudiano — que escatologicamente envolveria goiabas, sementes e órgãos sexuais humanos –, ou quando, no supermercado, apanhei goiabas e as atirei na sacola, num movimento inconsciente que me fizera pensar na goiabeira do quintal de casa. A memória do pé de goiaba, em verdade, surgiu-me em visitação não planejada ao quintal dos meus pais. Moravam já em outra residência, e coincidentemente nesta havia outra goiabeira.

Não era especial ou resguardava particularidades em relação à goiabeira antiga — quiçá hoje já tornada húmus. Todavia, estava ela esquecida entre árvores de outras espécies, sem ninguém a imaginá-la em audaciosas construções infantis, ou se mortos haviam sido enterrados em sua base para que crescessem e germinassem espíritos em seus frutos, servidos em bandejas de filmes de terror. Talvez, muito desconfiadamente, seja tão só mais uma goiabeira, como é apenas outra saudade aquela que nos impede de sonhar, para que possamos adoecer como adultos envelhecidos, que não comem mais goiabas porque contêm muitas sementes; temerosos cada vez mais da morte; sem saber que o valor da vida aumenta conforme se aproxima do fim.

Autor: Lucas Vinícius da Rosa

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